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quarta-feira, março 09, 2011

Resumo do que penso sobre 1964

Resumo do que penso sobre 1964

Olavo de Carvalho
Bah! (jornal universitário gaúcho), maio de 2004

Como repercussão da matéria de capa da edição anterior, "40 anos da ditadura", o filósofo, jornalista e escritor Olavo de Carvalho gentilmente escreveu-nos um texto exclusivo com sua opinião sobre esse turbulento período de nossa história.

* * *

Tudo o que tenho lido sobre o movimento de 1964 divide-se nas seguintes categorias: (a) falsificação esquerdista, camuflada ou não sob aparência acadêmica respeitável; (b) apologia tosca e sem critério, geralmente empreendida por militares que estiveram de algum modo ligados ao movimento e que têm dele uma visão idealizada.

Toda essa bibliografia, somada, não tem valor intelectual nenhum. Serve apenas de matéria-prima, muito rudimentar, para um trabalho de compreensão em profundidade que ainda nem começou.

Para esse trabalho, a exigência preliminar, até hoje negligenciada, é distinguir entre o golpe que derrubou João Goulart e o regime que acabou por prevalecer nos vinte anos seguintes.

Contra o primeiro, nada se pode alegar de sério. João Goulart acobertava a intervenção armada de Cuba no Brasil desde 1961, estimulava a divisão nas Forças Armadas para provocar uma guerra civil, desrespeitava cinicamente a Constituição e elevava os gastos públicos até as nuvens, provocando uma inflação que reduzia o povo à miséria, da qual prometia tirá-lo pelo expediente enganoso de dar aumentos salariais que a própria inflação tornava fictícios. A derrubada do presidente foi um ato legítimo, apoiado pelo Congresso e por toda a opinião pública, expressa na maior manifestação de massas de toda a história nacional (sim, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” foi bem maior do que todas as passeatas subseqüentes contra a ditadura). É só ler os jornais da época – os mesmos que hoje falsificam sua própria história – e você tirará isso a limpo.
 
O clamor geral pela derrubada do presidente chegou ao auge em dois editoriais do Correio da Manhã que serviram de incitação direta ao golpe. Sob os títulos “Basta!” e “Fora!”, ambos foram escritos por Otto Maria Carpeaux, um escritor notável que depois se tornou o principal crítico do novo regime. Por esse detalhe você percebe o quanto era vasta e disseminada a revolta contra o governo.

O golpe não produziu diretamente o regime militar. Este foi nascendo de uma seqüência de transformações – quase “golpes internos” – cujas conseqüências ninguém poderia prever em março de 1964. Na verdade, não houve um “regime militar”. Houve quatro regimes, muito diferentes entre si: (1) o regime saneador e modernizador de Castelo Branco; (2) o período de confusão e opressão que começa com Costa e Silva, prossegue na Junta Militar e culmina no meio do governo Médici: (3) o período Médici propriamente dito; e (4) a dissolução do regime, com Geisel e Figueiredo.

Quem disser que no primeiro desses períodos houve restrição séria à liberdade estará mentindo. Castelo demoliu o esquema político comunista sem sufocar as liberdades públicas. Muito menos houve, nessa época, qualquer violência física, exceto da parte dos comunistas, que praticaram 82 atentados antes que, no período seguinte, viessem a ditadura em sentido pleno, as repressões sangrentas, o abuso generalizado da autoridade. O governo Médici é marcado pela vitória contra a guerrilha, por uma tentativa fracassada de retorno à democracia e por um sucesso econômico estrondoso (o Brasil era a 46ª. economia do mundo, subiu para o 8º. lugar na era Médici, caindo para o 16º. de Sarney a Lula). Geisel adota uma política econômica socializante da qual pagamos o prejuízo até hoje, tolera a corrupção, inscreve o Brasil no eixo terceiro-mundista anti-americano e ajuda Cuba a invadir Angola, um genocídio que não fez menos de 100 mil vítimas (o maior dos crimes da ditadura e o único autenticamente hediondo -- contra o qual ninguém diz uma palavra, porque foi a favor da esquerda).

Figueiredo prossegue na linha de Geisel e nada lhe acrescenta – mas não se pode negar-lhe o mérito de entregar a rapadura quando já não tinha dentes para roê-la.

É uma estupidez acreditar que esses quatro regimes formem unidade entre si, podendo ser julgados em bloco. Na minha opinião pessoal, Castelo foi um homem justo e um grande presidente; Médici foi o melhor administrador que já tivemos, apesar de mau político. Minha opinião sobre Costa, a Junta Militar, Geisel e Figueiredo não pode ser dita em público sem ferir a decência.

Em 1964 eu estava na esquerda. Por vinte anos odiei e combati o regime, mas nunca pensei em negar suas realizações mais óbvias, como hoje se faz sem nenhum respeito pela realidade histórica, nem em ocultar por baixo de suas misérias os crimes incomparavelmente mais graves praticados por comunistas que agora falseiam a memória nacional para posar de anjinhos.

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postado por PBR às      

2 Comentários:

Blogger J. P. Fontoura disse...

Quando nem as mentiras e nem as verdades são nobres.

Ora, mas uma sociedade que escolheu “organizar-se” através de um Estado com regime democrático precisa aprender a conviver e respeitar os acordos que faz... ...pois sobres o “Regime Militar” o que se deveria trazer a discussão, como contribuição à história, não é a “Lei da Anistia”, que o Neolulopetismo, sub-repticiamente, tenta invalidar, mas os verdadeiros fatos e motivos e os “supostos erros e acertos” que “as partes” não tiveram... Ou tiveram?...

Transcorrerão dezenas, talvez uma ou mais centena de anos para que sejam entendidas as verdadeiras causas e consequências da "Ditadura Militar", mesmo assim se suas verdades e mentiras forem inseridas no real contexto em que ocorreram o que só acontecerá sem o lateralismo das paixões e quando amainarem os sentimentos revanchistas: de dor ou jubilo pela “derrota” ou “vitória”, que não houveram, pois só houve perda...

Mas mesmo com o passar desse inexorável tempo é possível que nunca venhamos saber o verdadeiro lado das verdades e das mentiras que hoje se confundem na covardia do anonimato, mas por quê? Porque, nesse caso, nem as supostas verdades e mentiras são nobres; ambas podem ter causado júbilo e dor, mais, nesse momento, é “rescaldo” de uma batalha entre irmãos, pois sempre se soube que não haveria vencedor o que se confirma agora...


Delmar Fontoura.

23 de julho de 2011 18:16:00 GMT-5  
Blogger João Luis da Costa Santos. disse...

Os fatos que antecederam e culminaram com o Golpe Militar de 1964 e todo o desenrolar da história até o fim da Ditadura Militar no Brasil, é um assunto que muito me fascina, no entanto nasci em 1963 e tudo o que minha geração sabe vem através da história contada por apenas um dos lados, ou seja, dos remanescentes e simpatizantes das organizações comunistas e partidos que por intermédio da luta armada tentaram tomar o poder. Obviamente a historia dos “anos de chumbo” é narrada segundo a conveniência e ótica dessas pessoas de forma que muitos fatos podem ter sidos omitidos ou até distorcidos. Minha preocupação é que o tempo está passando, e a idade avançada já chegou para os jovens e adultos daquela época. E aí quem poderá trazer a luz da verdade aos fatos?
É o que indago em meu blog www.naoaditaduracomunista.blogspot.com

25 de setembro de 2011 16:45:00 GMT-5  

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