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sexta-feira, maio 25, 2007

A "Ressignificação da Memória" - o revisionismo da Balaiada

A "Ressignificação da Memória" é quando um evento histórico que foi interpretado de uma maneira passa a ser interpretado de outra maneira para justificar uma posição ideológica. O neologismo "ressignificar" é muito usado pela Esquerda acadêmica pós-modernista e ainda não consta sequer nos dicionários mais recentes, mas na linguagem da Programação Neurolinguística essa palavra denota o ato de uma pessoa atribuir um significado favorável e satisfatório para um acontecimento que a incomoda ou prejudica a fim de não mais se sentir incomodada ou prejudicada.

Exemplo:

No Maranhão de 1838, a Balaiada foi uma rebelião cujo estopim foi a detenção do irmão de Raimundo Gomes sob acusação de assassinato. Raimundo Gomes era vaqueiro da fazenda do padre Inácio Mendes (liberal) e seu irmão fora preso por determinação do sub-prefeito José Egito (conservador). Com a cooperação da própria Guarda Nacional, Raimundo e sua comitiva invadiram a cadeia e libertaram seu irmão e todos os demais presos.

A amotinação continuou pelo interior do Maranhão e Raimundo teve como aliados vários desertores das forças armadas, o ex-escravo (alforriado) Cosme Bento - que fora condenado à prisão por assassinato e que, depois de fugir, chefiou 3 mil africanos entre escravos e foragidos - e o fabricante de balaios Manuel Francisco dos Anjos Ferreira.

Entretanto, conforme o artigo "Balaiada: construção da memória histórica", de Maria de Lourdes Monaco Janotti

Demonstrando atitude extremamente conservadora, o Índice História Militar do Brasil transcreve trecho do livro O Exército na História do Brasil:
A Balaiada foi um movimento subversivo irrompido em uma pequena vila maranhense que se alastrou por toda Província e ameaçou as regiões vizinhas. Recebeu o nome de Balaiada em referência a um de seus líderes, um fabricante de balaios Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, apelidado Balaio. Era um típico representante do Nordeste, homem resistente, de tez morena e cabeça achatada.
Se a separação maranhense tivesse se consumado, causaria grande transtorno em nossa configuração territorial, afetando a integridade nacional (p.1).
Raimundo Gomes tornou-se um perigo para a ordem pública, já que era chefe de uma revolta sem ideal, sem bandeira, e sem outros objetivos senão o saque e a obtenção de vantagens pessoais. "O colorido político era aí mero pretexto para demonstrações do mais desenfreado banditismo sertanejo", escreveu Hélio Vianna. (p.2).


Em seguida, a autora descreve como a Balaiada foi "ressignificada" na Internet nas páginas do PCB, do PT, de alguns deputados, do movimento racial negro, da Pastoral da Terra e até de alguns movimentos pentecostais.

O professor e historiador Hélio Vianna, cuja citação no texto de "O Exército na História do Brasil" mereceu da autora o comentário sobre sua "atitude extremamente conservadora", foi o primeiro catedrático da Faculdade Nacional de Filosofia e autor de inúmeros livros de história do Brasil.

Um episódio pitoresco de Hélio Vianna foi contado pelo frei Betto, seu aluno. A turma queria pregar uma peça no professor, que era pontual e rigoroso, sempre chegando e encerrando a aula na hora certa. Então, um dia, os alunos levaram um burro de carga para a sala de aula, deixando-o sozinho no meio das cadeiras e indo se esconder fora da sala. O professor Hélio Vianna chegou e, impassível, permaneceu na sala durante os 40 minutos, para a decepção geral dos alunos. Na aula seguinte, o professor disse à turma: "Prossigamos. Hoje avançaremos ao passo posterior ao ponto que discutimos na última aula. Quem não tiver a matéria da aula passada pode pedir ajuda ao burro..."


Obviamenete a balaiada foi uma ameaça à integridade nacional e, portanto, subversiva. Se não fosse ter sido debelada por Caxias, o Brasil estaria hoje desfalcado do Maranhão, que se tornaria mais uma Guiana, a República Bem-Te-Vi.

Hélio Vianna teve toda a razão em dizer que o colorido político na balaiada era apenas pretexto para o banditismo. No livro "Balaios e Bem-Te-Vis: a Guerrilha Sertaneja", de Claudete Dias, consta que os liberais quiseram organizar a bandidagem sob a forma do "Exército Bem-Te-Vi" e tentaram proibir o roubo e não deu certo.

Um dos líderes da balaiada - Cosme Bento das Chagas - se intitulava "Imperador, Tutor e Defensor das Liberdades Bem-te-vis" e vendia títulos e honrarias a seus seguidores. Hoje em dia querem "ressignificá-lo" como um campeão da igualdade.

Segundo o historiador marxista Caio Prado Júnior - que chegou até a viajar para a União Soviética de Stálin para depois escrever um livro de propaganda soviética - a balaiada foi um exemplo de rivalidade entre os liberais da classe média urbana e os fazendeiros aristocratas conservadores. No próximo passo o discurso foi transformado para "exemplo de revolta dos oprimidos" pela legião de historiadores marxistas seguindo a tradição inaugurada por Caio Prado Jr.

Eis aí a tal "ressignificação da memória". O conflito da balaiada, de mera rebelião de certos bandos liderados por bandidos cada qual disputando a autoridade constituída em busca de seus seus próprios interesses, foi transformado em luta de classes. Um movimento sem unidade, que ainda antes da campanha do Ten.-Cel. Luis Alves de Lima e Silva já estava enfraquecido com as divergências entre seus chefes e as lideranças liberais, foi "ressignificado" para item de ideologia marxista.

***


Assim, ao ver, por exemplo, um título de tese tão Sokaliano como "A Ressignificação da Interdisciplinaridade no Contexto Pedagógico Reflexivo e Interativo na Educação Básica", não precisa mais se assustar.

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