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segunda-feira, janeiro 08, 2007

Um retorno ao cavalheirismo?

Baseado no texto de Terrence Moore, em Agosto de 2001.

O cavalheirismo, um sistema rigoroso de regras morais e de costumes, por raro e ateanuado que seja em sua forma atual, ainda retém um lugar significativo na memória do homem contemporâneo. Pode ser surpreendente que uma geração criada com um nível tão raso de disciplina possa se importar com o cavalheirismo - uma ética que encoraja o auto-controle sexual e o serviço dos homens em favor das mulheres.

Alguns jovens rejeitam a revolução sexual e as lutas das feministas para criar um mundo andrógino. Seus anseios mais profundos são por um mundo onde homens virtuosos respeitam e protegem mulheres recatadas.

Eis uma resposta típica de uma jovem à pergunta de exame "O sistema de costumes conhecido como cavalheirismo foi necessário na Idade Média mas é irrelevante hoje."

"O cavalheirismo parece, de fato, ter se tornado irrelevante hoje e isso é uma perda trágica para ambos homens e mulheres. As mulheres se recusam a exigir dos homens o padrão necessário para atingir a honra elegante que perdemos. As mulheres são desrespeitadas na sociedade de hoje porque não pedimos nada acima disso. Não há provavelmente nenhuma mulher que, em alguma parte de seu coração, não gostaria de ser levada na garupa de um cavalo por um cavalheiro em armadura reluzente, mas nós não mais admitimos isso. Nós somos ensinadas a nos declarar iguais aos homens em todos os aspectos e de que não precisamos de tratamento superior. Se as mulheres reconhecessem que o cavalheirismo era uma maneira de demonstrar respeito e devoção, e não condescendência, teríamos alguma esperança de recuperar esse sistem de virtude que foi perdido."

A questão é como mostrar as pessoas o caminho para essa conclusão e incentivá-las a agir com base nisso. A libertação da sexualidade vulgarizada e da androginia forçada começará somente quando os jovens se voltarem para a criação de um novo cavalheirismo. Em outras palavras, homens devem voltar a agir como homens e mulheres, como mulheres; e um certo padrão de decência deve governar suas relações.

Quando se pensa em se o cavalheirismo acabou, inicialmente se pensa em se os homens ainda abrem as portas para as mulheres ou se deviam abrir. Outras cortesias que os homens costumavam praticar, e que os jovens de hoje nunca viram ou ouviram falar, são tais como se levantar quando uma dama entra no recinto. As mulheres, com poucas exceções, sentem falta dos dias em que os homens agiam como cavalheiros.

Nossos bisavós deplorariam a prática moderna de usar chapéu (ou boné) à mesa: "Em meu tempo, uma dama não se sentaria à mesa com um homem que não tirasse o chapéu". Em épocas passadas, a sociedade reconhecia nas mulheres um talento natural para arbitrar as boas maneiras.

Até que pondo o comportamento não-cavalheiresco se tornou normal nos homens? Por exemplo, hoje em dia há uso inveterado de palavrões. É compreensível a relutância das mulheres que, naturalmente dispostas a agradar, não queiram perturbar as conversações corrigindo alguém, mas as mulheres podem incentivar a criação de um ambiente de cavalheirismo ao insistir para que os homens parem de usar linguagem de baixo calão, se necessário, deixando sua presença.

Mais do que apenas a má linguagem, as mulheres devem ter experimentado uma forma mais ameaçadora de indecência. A maioria não gosta de receber assovios, ou gritos, ou serem feitas de objeto de insinuação sexual. A cena típica de uma mulher na rua sendo chamada de dentro de um carro cheio de rapazes jovens. Nunca se sabe se essa manifestação pode avançar para algo mais perigoso, especialmente em certos lugares da cidade, à noite ou em ruas desertas.

Um rapaz jamais tem de se preocupar com um grupo de mulheres que esteja o cercando. Do ponto de vista de uma mulher, o ataque verbal, além de ser degradante em si, é sempre um ataque físico em potencial. Uma mulher sabe que um carro cheio de adolescentes, quaisquer que sejam suas intenções, pode agarrá-la sem que ninguém venha em seu socorro. Um homem jovem não tem preocupação equivalente. Assim, há uma diferença entre os sexos, e essa diferença requer um código de costumes específico por gênero, em vez de ser neutro em relação ao gênero.

"Ser homem não é apenas uma questão de ser do sexo masculino e atingir uma certa idade. Esses são atos da natureza; ser homem é um ato de manter o caráter. Não é mais fácil se tornar um homem do que se tornar virtuoso. Na verdade, os dois são a mesma coisa. A raiz dessa palavra fora de moda, "virtude", é a palavra "virtus" em Latim, um derivado de "vir", ou homem. Como entendido por Aristóteles, virtude é uma "moderação" entre os extremos de excesso e deficiência. Muitas vezes, entre os jovens de hoje, os extremos predominam. Um extremo sofre de excesso de masculinidade, ou energias masculinas mal direcionadas e não refinadas. O outro extremo sofre de falta de masculinidade, uma total escassez do espírito masculino. Chamemo-los de bárbaros e bolhas. Esses dois tipos de erro são tão comuns que a prescrição para esses males pode ser reduzida a duas instruções simples: não seja um bárbaro, não seja um bolha. O que restar, ceteris paribus, será um homem."
- Terrence Moore.
O cavalheirismo foi muito importante na história da civilização ocidental. O cavalheirismo surgiu e foi implantado lentamente nos costumes em resposta à uma das mais graves crises na história do Ocidente: o total colapso da civilização depois da queda do Império Romano no século V D.C e depois do colapso do Império Carolíngeo, mais precário, no século IX. Jamais houve um período onde a vida normal fosse tão "solitária, pobre, terrível, brutal e curta". Não havia governo. Não havia força policial. As pessoas e suas propriedades estavam completamente à mercê de homens muito maus. Esses homens eram chamados de "jovens", em parte pela sua idade e em parte porque possuíam uma energia jovial e desrespeito por qualquer ordem antiga e estabelecida.

Esses jovens a cavalo vagavam em bandos e saqueavam qualquer vestígio de civilização que encontrassem: famílias, igrejas, fazendas, mercados. Como todos os rapazes, eles tentavam encontrar moças. Não tendo nenhum respeito ou decência, seu método era simples: tomavam para si qualquer mulher que encontrassem. Tomavam viúvas, esposas, filhas e até freiras, em qualquer lugar que pudessem encontrá-las. Os jovens homens não tinham noção de galanteio. Seu desejo pelo sexo oposto se expressava em violência sexual. Em suma, o comportamento dos rapazes durante aquela época não era muito diferente do comportamento das gangues de hoje em dia.

A solução para essa crise veio através de uma mudança gradual nos motivos e costumes dos cavaleiros armados. Homens estabelecidos, a Igreja, e as moças combinaram forças para domar as paixões desordenadas desses predadores violentos. A liberdade masculina se transformou em dever. Para se tornar verdadeiros cavalheiros, os rapazes tinham que se submeter a um conjunto elaborado de regulações conhecido como cavalheirismo, que os incluíam na ordem social e estabeleciam-nos em casamentos com belas e ricas herdeiras. Para se tornar um cavalheiro, os jovens tinham que se submeter a um regime de treinamento ético que os preparava para uma vida de serviço.

O elemento do perigo e do empreendimento era mantido em suas vidas já que eles tinham que proteger sua pátria e suas mulheres. A idéia de honra masculina surgiu disso. Se tornou desonrável para um homem forte intimidar ou agredir alguém fisicamente mais fraco. O ritual de exibição de cavalheirismo era os torneios. Nenhum outro evento permitiu aos jovens cavalheiros brilharem tanto quanto essa exibição de coragem e cortesia em combate diante dos olhos de donzelas ansiosas e seus pais criteriosos. O torneio não era simplesmente um jogo ou um esporte. As virtudes e habilidades marciais desenvolvidas preparavam os jovens para embates contra inimigos domésticos e externos nessa época sem leis. O respeito dado às damas garantia que a energia masculina jamais fosse empregada contra o sexo mais nobre, mas ao contrário, em sua defesa.

As jovens de hoje provavelmente podem sentir a situação das mulheres na Idade Média e, talvez, reconhecer que os costumes modernos estão se revertendo às condições pré-medievais. Apesar dos esforços das radicais feministas, androginistas e hiper-igualitaristas, e apesar de que provavelmente não tenham a menor idéia do que significa se tornar um homem, muitos rapazes desejam se tornar cavalheiros, algo mais do que garotos irresponsáveis ou "carinhas legais". Infelizmente, esse tipo de educação ética está totalmente ausente nas escolas, na cultura, e muito frequentemente, nos próprios lares.

Uma evidência desse anseio dos rapazes veio da fonte mais improvável: uma coleção de ensaios chamado "Entre Mães e Filhos" ("Between Mothers and Sons") cujas autoras são feministas, pacifistas, esquerdistas, mulheres dos anos 60. Apesar disso, essas mães descobrem em seus filhos algo que elas não ensinaram a eles: a natureza masculina. Uma das mães, Janet Burroway, descreve como ela encarou nervosamente as aventuras de seu filho com as idéias politicamente conservadoras e militares, e seu fascínio com as armas. Ela viu que as lições de costura que ela havia dado ao filho na esperança de torná-lo um pequeno feminista "foram postas em prática na costuras de cintos de cartucho de munição e roupa de camuflagem".

Em suma, mesmo até mesmo as várias mães feministas de hoje estão se descobrindo na situação da mãe de Sir Percival (das lendas da Távola Redonda), que nunca havia deixado seu filho ver um cavaleiro porque se um deles contasse a ele como era sua vida, seu filho desejaria se tornar um cavaleiro também. Na primeira vez que Percival viu os cavaleiros passarem na floresta, Percival soube que ele tinham que se tornar um deles. Quando sua mãe viu que seus cuidados não eram mais capazes de mantê-lo, ela apoiou Percival em sua decisão:

"Nobre filho, eu gostaria de ensiná-lo uma lição que você faria bem em ouvir, e se lhe aprouver lembrá-la, grande benefício lhe advirá. Você logo se tornará um cavaleiro, meu filho, se isso apraz a Deus, e eu aprovo. Se, próxima ou distante, você encontrar uma dama que precise de ajuda, ou uma donzela em perigo, não se obstenha de ajudá-la se elas pedirem; pois nisso está toda honra. Aquele que não honra as damas, perde sua própria honra. Sirva as damas e donzelas, e você receberá honra em todo lugar. Se você pedir um favor à alguma, evite ofendê-la e não faça nada que cause desgosto. Aquele que ganha um beijo de uma donzela receberá muito; se ela o permitir beijá-la, eu o proíbo de avançar além se, em minha memória, você dispor-se a respeitá-la... Nobre filho, fale com homens nobres e vá com eles; um homem nobre jamais dá mau conselho a aqueles que frequentam sua companhia. Acima de tudo eu rogo-lhe que entre na igreja e ministério e ore ao Nosso Senhor para que dê-lhe honra nesse mundo e conceda-o o modo de agir que chegue a um bom destino."

A mãe de Percival aprendeu que ela não podia negar a natureza de seu filho. As atuais tentativas de negar a natureza masculina se provaram nocivas à ambos homens e mulheres. A história do cavalheirismo nos ensina que os rapazes podem se tornar gentis, desde que eles possam fazê-lo em seus próprios termos, desde que a gentileza não reflita pusilanimidade, mas seja aliada à força e à honra.

No avanço dessas idéias o que está em jogo é a própria masculinidade dos homens. As mulheres podem perceber em que os homens podem se transformar e essa distante época do passado ainda pode se tornar novamente uma fonte de instrução viva. Atualmente há uma grande batalha cultural travada em cada esquina, cada escola e em cada família. É uma batalha pela decência. Em várias frentes, essa batalha está sendo perdida, mas ainda há tempo de virar.

Mais do que demonstrar interesse no cavalheirismo, os jovens podem começar a agir sob os princípios morais de sua natureza. Winston Churchill uma vez disse que a Segunda Guerra Mundial seria vencida pelo soldado desconhecido para que a batalha pela decência não fosse vencida por um grande pensador ou estadista ou mestre, mas que seria vencida por milhões de homens e mulheres comuns praticando seus deveres. O retorno do cavalheirismo requer que cada rapaz exercite sua coragem se tornando um cavalheiro e que cada moça exercite sua simplicidade em se tornando uma dama.

Terrence Moore, ex-fuzileiro naval e professor de história, é reitor da Ridgeview Classical Schools em Ft. Collins, Colorado.

Mais textos sobre o cavalheirismo e até exemplos atuais podem ser encontrados em ChivalryToday.com.

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postado por PBR às      

1 Comentários:

Blogger Aline Ramos disse...

Uau!!!
Eu não sei se esse blog ainda está ativo, nem ao menos sei quem é o autor dele, mas gostaria de expressão minha felicidade e satisfação por ter encontrado este texto! Ele é simplesmente FANTÁSTICO! É quase inacreditável ver um homem falando de modo tão incrível a respeito da restauração do Cavalheirismo!
PARABÉNS!!!
Que mais rapazes nesta geração "século XXI" possam redescobrir seus chamados para serem Cavalheiros!
Deus o abençoe!

10 de janeiro de 2010 22:50:00 GMT-6  

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