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segunda-feira, novembro 22, 2010

Como ensinar Lógica com eficácia pedagógica



Como ensinar Lógica com eficácia pedagógica



O filósofo medieval Avicenna uma vez escreveu o seguinte:
Qualquer um que negue a lei da não-contradição deveria ser espancado e queimado até que admita que ser espancado não é a mesma coisa que não ser espancado, e que ser queimado não é o mesmo que não ser queimado.
do blog εξο της παρεμβολης (exotesparemboles).

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domingo, fevereiro 01, 2009

Dever de casa

A afirmação abaixo é verdadeira ou falsa?
"Por quase meio século, a Igreja estava dividida em duas ou três obediências que se excomungaram umas às outras, de modo que todo Católico vivia sob excomunhão por um papa ou por outro, e, em última análise, ninguém podia dizer com certeza qual dos contendores tinha a verdade ao seu lado.
A Igreja não mais oferecia a certeza da salvação; ela havia se tornado questionável em sua forma objetiva inteira - a verdadeira Igreja, a verdadeira promessa de salvação, tinha que ser buscada fora da instituição.
É diante desse cenário de uma consciência eclesiástica profundamente abalada que devemos compreender que Lutero, no conflito entre sua busca por salvação e a tradição da Igreja, no final veio a experimentar a Igreja, não como a garantidora, mas como a inimiga da salvação."

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sexta-feira, novembro 30, 2007

O Mito da Renascença - parte I

Traduzido e condensado do artigo de James Franklin

A história das idéias está repleta de estorinhas fictícias, bem mais do que a maioria dos outros departamentos da história. Eis três delas que combinam a implausibilidade inicial com uma persistência à refutação:

- que na Idade Média se acreditava que a Terra era plana;
- que os filósofos medievais debatiam sobre quantos anjos podiam dançar na cabeça de um alfinete;
- que Galileo revolucionou a Física ao soltar pesos do alto da Torre Inclinada de Pisa.

Nenhuma dessas estórias é verdadeira, e nenhum historiador competente afirmou nenhuma delas, mas mesmo assim essas estórias não desaparecem da consciência pública.

A primeira é facilmente refutada. A obra de pensamento medieval mais conhecida, tanto em sua época como hoje, é a Summa Teologica de São Tomás de Aquino. No livro 1, questão 1, artigo 1 desse tratado, a curvatura da Terra é dada como exemplo padrão de uma verdade científica bem conhecida.

A acusação sobre os anjos na cabeça do alfinete parece ser uma invenção comparativamente recente. Não fui capaz de descobrí-la em nenhum autor antes de Erasmus Darwin, embora alguém possa suspeitar que os Enciclopedistas ou Rabelais como mais prováveis autores dessa idéia. Jamais foi demonstrado que algum escritor medieval tenha se engajado em tal disputa, pela boa razão de que ela era inexistente.

A estória sobre Galileo tem um pouco mais de fundamento, no sentido em que ela foi narrada a menos de cinquenta anos depois da morte de Galileo e por um contemporâno seu. Mas as investigações não descobriram nenhuma evidência que Galileo realmente executara tal experimento, seja em Pisa ou outro lugar.

Mas negar essas estórias não irá impedir sua difusão pois não impediu das outras vezes. Mesmo que se desminta a estória da terra plana, ela será provavelmente susbstituída pela estória de que Santo Agostinho acreditava que o hemisfério sul seria desabitado pois as pessoas que vivem lá não poderiam ver a Segunda Vinda de Cristo em Jerusalém. A única ameaça à imortalidade dessas estorinhas parece ser a possível derrubada de uma estória ainda mais inconsistente e bizarra.

As estorinhas sobre os pensadores medievais e Galileo são pequenas mentiras.
A grande mentira, da qual essas são apenas rodapés, é a Renascença.


Os principais elementos do mito da Renascença são familiares:

- o súbito surgimento de uma nova visão do mundo depois de mil anos de obscuridade,
- a redescoberta do conhecimento ancestral,
- a difusão de novas idéias de liberdade e curiosidade intelectual,
- a investigação do mundo real em lugar das disputas estéreis dos acadêmicos,
- a ampliação do mundo através do descobrimento do Novo Mundo,
- a reforma da religião e
- o avanço da ciência.

De fato, não há verdade em nenhuma dessas idéias. Ao contrário, como veremos, a "Renascença" foi um período em que o pensamento decaiu significativamente, dando fim a um período de avanço no final da Idade Média.

Os vários problemas de definição quanto ao que aconteceu na Renascença e a incapacidade do público em manter a memória dos fatos permitiram a Renascença sofrer mudanças dramáticas de escala como um King Kong. O consenso razoável estabelece o início por volta da queda de Constantinopla para os Turcos em 1453, dando fim a Idade Média em 1564. Naquele ano, por uma coincidência conveniente, Michelangelo e Calvin morreram e Shakespeare, Marlowe e Galileo nasceram.

Isso dá a Renascença cerca de 100 anos, o que parece ser o bastante para uma explosão de energia criativa. Esse consenso coloca a dispersão dos acadêmicos bizantinos e as viagens de descobrimento à América e às Índias bem cedo no período, para que sirvam como fatores causadores da difusão das novas idéias. Também inclui todas as pessoas que são vistas como figuras da Renascença - Leonardo da Vinci, Lorenzo de Medici, Botticelli, Rabelais, Erasmus, More, os Bórgias, Maquiavel e Lutero.

Mas o problema para um admirador do período é que ele produziu apenas uma conquista intelectual significativa - a teoria planetária de Copérnico, publicada no fim do período em 1543.

Esse dado embaraçoso tem sido resolvido com o esforço de borrar os limites da Renascença, sob o pretexto de que eles não poderiam ser precisamente definidos, e se admite tacitamente que eles podem variar o bastante para incluir Dante e Giotto em uma extremidade e Galileo na outra. Isso cria uma Renascença inchada de 300 anos e que inclui a Peste Negra, a Guerra dos 100 Anos e outras coisas que mancham o que seria uma época áurea. Mas há um bom motivo para desejar essa expansão: na Itália, o centro da Renascença, não houveram pensadores merecedores do nome entre esses dois limites.

Para comparar a Renascença com algo (de maneira desfavorável, como será revelado), lembremos a situação do mundo por volta de 1300, a época de Dante e Giotto. Não poderia existir uma figura mais medieval do que Dante, e nem uma expressão mais perfeita da visão de mundo medieval do que a Divina Comédia. A vida de Dante foi, da maioria dos pontos de vista (mas não necessariamente o dele), o ponto alto da Idade Média. Foi uma era de maravilhas tecnológicas, com os primeiros óculos, os primeiros espelhos de vidro, os primeiros relógios mecânicos, a introdução da contabilidade de registro duplo e os alto-fornos siderúrgicos.

A pintura de Giotto foi, em concordância universal, o começo da arte moderna, e deve ser considerado um avanço tanto tecnológico como artístico. Ele produziu, aparentemente por si próprio, o ideal de arte ilusionista que prevaleceu até 1870 - o objetivo da pintura era descobrir métodos que fariam a pintura "parecer exatamente igual à coisa mesma". O próprio Giotto descobriu alguns dos truques mais importantes, tais como grupar umas figuras com uma parte obscurecida de outras para indicar profundidade e o uso correto dos ângulos para representar linhas tridimensionais em uma superfície bidimensional.

Invenções nos outros campos ampliaram o alcance da Europa no mundo - em uma direção, a Groelândia ficou em contato mais ou menos regular e a China na outra direção. Havia um arcebispado em Peking e atividade missionária em vários outros países asiáticos. Os relatos de Marco Polo em suas viagens eram muito populares. Em 1291, os irmãos Vivaldi de Gênova foram para Marrocos numa tentativa de encontrar uma rota marítima contornando a África até a Índia. Infelizmente eles desapareceram sem deixar vestígios, mas seus parentes estabeleceram agências comerciais na Índia, alcançadas pela rota do Mar Vermelho. Uma admiração indiscriminada pela época pode, contudo, se omitir de citar outra de suas inovações, o canhão. Embora tenha sido uma grande época em vários aspectos, ela foi tão afligida por guerras, pragas, expurgos e misoginia quanto qualquer outra época anterior ou posterior.

O principal esforço intelectual da Idade Média foi gasto, evidentemente, não em assuntos tecnológicos mas em filosofia e teologia. Dos grandes escolásticos, dois dos mais famosos, Duns Scotus e William de Ockham, foram contemporâneos de Dante. Embora as conquistas da filosofia medieval não sejam fáceis de apreciar, podemos entender algo do que foi feito na ciência, que era então considerada um ramo da filosofia. A história da ciência medieval vem sendo tratada seriamente apenas em tempos comparativamente recentes, já que servia às teses da maioria dos historiadores a idéia de que os estudiosos medievais estivessem examinando livros antigos em vez de examinar o mundo real.

Um tanto menos culpável é o fato de que o interesse em ciência e a habilidade em entender o Latim medieval são, pela natureza das coisas, raramente encontradas ambas numa mesma pessoa. Mas com os textos selecionados hoje disponíveis na tradução de Edward Grant "Sourcebook in Medieval Science" (também autor de "A History of Natural Philosophy : From the Ancient World to the Nineteenth Century"), podemos ver realmente como era boa a ciência da época.

Uma coisa que se torna clara é que todas as melhores partes vêm do período 1250-1350, isto é, durante a vida de Dante, uns poucos anos antes e depois. Por essa época, o melhor da ciência Grega e Árabe fora traduzida e absorvida e novas descobertas estavam em andamento. Até 1300 a ciência mais ativamente cultivada era a ótica geométrica. Desta, os maiores pesquisadores eram associados com a corte papal de João XXI nos anos 1270. O próprio Papa foi autor de um livro sobre o assunto (além de escrever best-sellers em lógica e medicina), e ele de fato morreu na busca da ciência quando o teto de seu laboratório desabou.

No próximo século, foi a mecânica que atraiu a atenção dos estudiosos. A importância disso foi que a próxima fase da ciência e da matemática, representada por Galileo, Descartes e Newton, fez suas mais importantes descobertas em conexão com o movimento dos corpos. Mas isso foi um assunto notadamente ausente da ciência da antiguidade.

O movimento, e a variação contínua em geral, parece ter sido considerada muito confusa para ser tratada rigorosamente, e não há sugestão de que nenhum tipo de mensuramento pudesse se aplicar ao movimento. Não há nenhuma frase em Grego ou Latim primitivos equivalente a "quilômetros por hora". Mesmo o movimento dos planetas foi tratado em termos da geometria das esferas celestes, à qual os planetas estariam supostamente ligados. Para remediar essa situação, era necessária uma identificação da variação contínua como assunto e a projeção de distinções importantes entre os conceitos básicos.

Se havia uma coisa na qual a filosofia medieval era boa, era em fazer distinções. Os cientistas da escola Merton, em Oxford nos anos 1330 e 1340, escreveram extensivamente sobre o "significado e remissão das formas", isto é, as mudanças de quaisquer quantidades que pudessem variar continuamente. O tópico cobria o movimento dos corpos, a mudança gradual de quente para frio, a variação do brilho sobre uma superfície e, de acordo com um dos membros da escola, o "significado e remissão da certeza com respeito à dúvida". Sua conquista crucial foi distinguir entre velocidade e aceleração, e entre aceleração uniforme e variada. Eles foram capazes de desenvolver o que expressamos através de uma equação de movimento uniformemente acelerado. Tudo isso requer um talento matemático de alta ordem.

Os próximos passos (finais, como ficou provado) nessa direção foram as realizações do último e maior dos cientistas medievais, Nicole Oresme. Pensador de notável versatilidade, ele escreveu sobre vários assuntos como teologia e finanças, mas devotou muitos de seus esforços à ciência e à matemática. Ele inventou os gráficos, uma das poucas descobertas matemáticas desde a antiguidade que são familiares a todos os leitores de jornais. Ele foi o primeiro a realizar cálculos envolvendo probabilidade.

Oresme tinha um bom domínio da relatividade do movimento, e argumentou corretamente que não havia meio de distinguir pela observação entre a teoria então vigente de que os céus giram em torno da Terra em um dia, e a teoria de que os céus estão em repouso e a Terra gira em um dia. Aparentemente ele foi o primeiro a comparar o funcionamento do universo a um relógio, uma imagem que foi bastante repetida nas épocas seguintes. Várias de suas conquistas mais técnicas também têm sido admiradas pelos peritos.

De repente, tudo isso parou.

Conhecendo a obra científica e matemática de Descartes e Galileo, mas sem a informação cronológica, poderíamos supor que os autores foram estudantes de Oresme. A obra de Galileo acerca dos corpos em movimento é o próximo passo depois da física de Oresme; a geometria cartesiana segue-se imediatamente da obra de Oresme com gráficos.

Mas nós sabemos que o intervalo cronológico real foi de 250 anos, durante os quais nada aconteceu nesses campos. Nem tampouco aconteceu algo de importância em outros campos da ciência nos 2 séculos entre Oresme e Copernicus. Outros campos intelectuais nada tiveram que oferecer.

A história da filosofia é naturalmente capaz de listar filósofos entre 1350 e 1600, mas sua inclusão parece ser baseada no mesmo princípio que faz mapas globais incluírem Wyndham, em Washington, mas deixar de fora Wollongong - deixa grandes espaços em branco a preencher. Embora seja possível encontrar uma tradução em inglês de qualquer filósofo nos 300 anos entre Scotus e Descartes, eles não fariam tanta falta. A estagnação intelectual desses séculos é evidente também na falta de mudança das universidades: o currículo que entediava Locke em Oxford em 1650 era quase idêntico ao que Wyclif julgava incompleto em 1350.

Em 200 anos, por que a geração de Oresme foi a última capaz de pensar? Há uma sugestão óbvia: foi a última geração a crescer antes da Peste Negra. A praga de 1348 a 1350 matou um terço da população européia, e reincidências da praga e outros desastres causaram um decréscimo contínuo da população por um século. Sob várias maneiras, a ordem da sociedade gradualmente se desfez; esse processo foi assunto de um dos livros mais populares de história nos últimos anos, "Um Espelho Distante", de Barbara Tuchman (também autora de "A Torre do Orgulho").

Embora a violência não tenha sido pouca até então, ela atingiu proporções inéditas. Os anos da praga viram a incidência de vários massacres de Judeus, especialmente na Alemanha. França e Inglaterra sofreram severamente durante a Guerra dos Cem Anos. Embora as batalhas intensas fossem raras, a guerra proseguia em maior parte através de campanhas de pilhagem em extensas áreas rurais. O custo de expedições regulares foi mantido sob taxação opressiva, o que enfraqueceu a economia, e a guerra constante fez surgir os barões do latrocínio que vivam do terror local e do serviço mercenário.

A autoridade do governo central praticamente perdeu sua efetividade. Em épocas diferentes, revoluções das ordens mais baixas atingiam o poder em Roma, Florença, Paris, Flanders e Londres. Em todos os casos a supressão e o massacre se seguiram. A autoridade da Igreja, até então principal influência na unidade da Europa, e patronato da vida intelectual, sofreu ainda mais. O Grande Cisma e seus consequentes abusos desacreditaram a Igreja ao criar duas autoridades rivais, mutuamente excomungadas, e nenhuma delas com santidade o bastante para se legitimar.

Nada disso melhorou muito no século XV, mesmo que o Cisma tenha sido finalmente sarado e a Guerra dos Cem Anos tendo acabado. Especialmente na Inglaterra, as coisas foram de mau a pior quando a anarquia se tornou normal na Guerra das Rosas. Historiadores jurídicos registram esse como um período de degeneração das leis Inglêsas; não havia motivo para desenvolver a lei do Rei quando o Rei não mais tinha meios de fazer valer a lei.

O mundo se contraiu: uma revolução nacionalista na China eliminou todas as influências externas, perdeu-se o contato com a Groelândia, e o Cisma causou uma perda do interesse em missões ao Oriente. Um sinal dos tempos foi a preocupação do século XV com a morte na arte e literatura, e presumidamente, a vida diária. As paredes das igrejas foram preenchidas com danças macabras, a poesia repetia a lição da mortalidade quase em exclusão de tudo o mais, e o verme provavelmente tomou o lugar do pássaro como animal mais esculpido. As figuras do século que sobreviveram na imaginação popular foram Joana D'Arc, Barba Azul, Drácula e Torquemada, todos eles associados com a morte violenta de uma forma ou de outra.

O efeito desses desenvolvimentos na vida da mente foi ruim, como era de se esperar. Não é muito fácil entender o que aconteceu em detalhes, já que na superfície as coisas iam de maneira normal. As universidades continuaram a ensinar as mesmas coisas, e de fato várias universidades novas foram fundadas. Mas nada de novo ocorreu nelas - os filósofos e teólogos universitários do século XV, por exemplo, repetiram Ockham quase que palavra por palavra.

Em um nível mais popular de pensamento, algumas ocorrências estranhas se deram na concepção geral do mundo. O mundo se tornou coberto por uma rede elaborada de sinais. No campo secular, houve uma epidemia de heráldica. De todas as ciências, ela é talvez a mais degenerada intelectualmente, sendo um tipo de perversão do desejo genuinamente científico por um sistema e pela ordem, da mesma maneira que a filatelia é uma perversão do desejo de classificar. A heráldica é nada mais que um distanciamento do pensamento genuíno, no sentido em que a genealogia pelo menos estuda alguns fatos reais, enquanto a heráldica é um sistema completamente arbitrário de sinais parasitando a genealogia. Mesmo a Guerra das Rosas levou esse nome por causa dos símbolos dos lados oponentes.

Ao mesmo tempo a literatura contraiu uma doença que parece de alguma maneira ser um sintoma da mesma doença básica: a alegoria. O famoso exame que Huizinga fez do período em "O Outono da Idade Média" descreve como tudo chegou a ser considerado como material do qual se fabricava sinais de alguma outra coisa:

A noz significa o Cristo, o núcleo doce é Sua natureza divina, a casca verde e pulposa é Sua humanidade, a casca de madeira entre as duas é a Cruz... Cada uma das palavras da Ave significa uma das perfeições da Virgem, e ao mesmo tempo uma pedra preciosa, e é capaz de afastar um pecado, ou o animal que representa aquele pecado... o sete eleitores do Império significam as virtudes... os sapatos significam cuidado e diligência, as meias a perseverança, a banda elástica das meias a resolução, etc.

Esse hábito de pensamento era particularmente destrutivo do pensamento racional, já que de um lado um enorme esforço imaginativo era gasto em traçar paralelos cada vez mais surpreendentes entre as coisas, e por outro lado era essencial para o exercício fingir que esses paralelos não eram apenas coisas da imaginação, mas que seriam instrutivos porque as coisas comparadas realmente se espelhariam uma à outra.

Não é muito despropositado, na minha opinião, comparar isso com o marxismo. A tendência do pensamento marxista quando se depara, por exemplo, com um resultado científico, é relacionar a ideologia da ciência burguesa com a consciência histórica dos cientistas e sua comunidade. À parte da questão de essa idéia ser verdadeira ou não, o efeito resultante é o desvio da atenção do fato original. O mesmo é verdade para a alegoria. Os fatos sobre uma coisa e suas relações reais com outras coisas serão ignorados se a mente que a observa estiver treinada para buscar imediatamente maneiras engenhosas de ver uma coisa como sinal de alguma outra coisa. A construção de similaridades alegóricas substituiu a busca pelas conexões causais.

A enumeração dos sistemas patológicos de sinais, infelizmente, não termina com a heráldica e a alegoria. A astrologia, embora combatida vigorosamente por Oresme e outros, aumentou sua influência, produzindo sua própria divisão do céu em signos governando os destinos dos homens. A cabala judaica sugou ainda mais energia intelectual criando um sistema de significação rival.

Esses sistemas pelo menos tinham poucos deméritos. Alguns eventos relacionados a esses sistemas foram mais sinistros. O hábito de pensamento pelo qual tudo pode significar e afetar alguma outra coisa levaram à busca pelas influências ocultas. A astrologia, é claro, buscava um conjunto de causas ocultas das ações. A alquimia desfrutou seu auge na Renascença, atendendo a um mercado similar. Assim também foi com a bruxaria.

Naturalmente, a existência de pessoas em busca de poderes ocultos gerou o medo nos outros de que essas pessoas pudessem ser bem sucedidas. A repressão aumentou em proporção. A queima das bruxas e a Inquisição tendem a serem vistas hoje como pertencentes à Idade Média, sendo incompatíveis com o mito da Renascença do aumento do esclarecimento.

Embora na Idade Média esses fenômenos ocorressem de vez em quando, o grande surto de ódio contra bruxas e heréticos explodiu à medida que o século XV progredia (ou regredia). A Inquisição espanhola esteve no seu pior por volta das viagens de Colombo, época em que ela já havia sido vinculada à repressão política e provou estar além do controle do Papa. A caça e queima das bruxas em larga escala pertence principalmente ao século XVI.

Por volta de 1500, haviam aparentemente poucos pensadores restantes que fossem capazes de dizer a diferença entre sinais e coisas. Religião, de acordo com os Reformadores, não era tanto acerca do homem, de Deus ou da comunidade cristã, quanto era sobre a escritura, os sinais escritos por Deus. A concentração excessiva no texto pelos primeiros reformadores ameaçou eliminar como irrelevante tudo o que não fosse fé nos signos, incluindo a moralidade pessoal e a ciência. Felizmente as coisas não funcionaram bem dessa forma na maioria dos lugares, e a teologia fundamentalista não empederniu e matou o pensamento como o fez no Islã.

Calvin desenvolveu ainda um outro sistema de signos. Como ele quis estabelecer estados nos quais os eleitos de Deus poderiam louvá-Lo por tê-los escolhidos, era essencial ser capaz de reconhecer os sinais pelos quais alguém pudesse distinguir os eleitos dos condenados. No início, Calvin teve certeza de que os conhecia, mas seus planos enfrentaram dificuldades quando alguns dos seus associados que pareciam possuir todos os sinais mais tarde discordaram dele. Ele finalmente admitiu que embora alguém pudesse ter certeza da própria eleição, não haviam sinais infalíveis para dizer se alguém estava salvo.

A menção à Calvin serve para nos lembrar que a Renascença pode ser considerada, entre outras coisas, como a era dos vendedores de panacéias lunáticas: Torquemada, Savonarola, Paracelsus, Nostradamus, John Knox. Alguns desses conseguiram poder sobre países inteiros. "O sono da razão faz surgirem monstros", como disse Goya. Entre eles, essas pessoas também puseram por terra quaisquer sugestões de que a Renascença teve alguma coisa a ver com liberdade e tolerância.

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sábado, junho 30, 2007

A Busca do Milênio - A continuidade histórica do movimento revolucionário

[O texto abaixo foi baseado numa palestra de Murray Rothbard sobre o surgimento do comunismo.]

The Pursuit of the Millennium, Norman Cohn
O livro magistral de Norman Cohn, "The Pursuit of the Millenium, Revolutionary messianism in medieval and Reformation Europe and its bearing on modern totalitarian movements" (1957, reimpresso em edição expandida em 1961), que foi resultado de 10 anos de estudos, descreve com detalhes sardônicos a emergência dos movimentos revolucionários no fim do século XII.

Se referindo aos primeiros movimentos comunistas, Cohn afirma que "É característico desse tipo de movimento que seus objetivos e premissas não tenham limite... Qualquer que sejam suas histórias individuais, coletivamente essas pessoas formam um estrato social reconhecível - uma intelligentsia inconformada e de bastante baixo nível... e o que se seguia a elas foi a formação de um grupo de um tipo peculiar, um verdadeiro protótipo do partido totalitário moderno."

"Um grupo incansavelmente dinâmico e totalmente implacável que, obcecado pela fantasia apocalíptica e cheio de convicção sobre sua própria infalibilidade, se coloca acima do resto da humanidade e não reconhece nenhum outro valor que não seja a sua própria missão... Uma promessa milenar desmedida feita com convicção desmedida similar à de um profeta para um número de homens erráticos e desesperados no meio de uma sociedade onde as normas e relacionamentos tradicionais estão se desintegrando - aqui, como parece, está a fonte daquele fanatismo subterrâneo peculiar."

Como disse Olavo de Carvalho, se referindo aos ícones revolucionários Che Guevara e Bin Laden, "[ambos] acreditam-se tão profundamente, tão essencialmente identificados a uma causa superiormente justa e nobre, que mesmo seus pecados mais flagrantes e seus crimes mais hediondos lhes parecem resgatados, de antemão, pela unção incondicional de uma divindade legitimadora. Pouco importa que essa divindade seja, num deles, só informalmente teológica (a História, o Progresso, a Revolução), e só no outro expressamente teológica. Em ambos os casos há o apelo a uma fonte suprema da autoridade, que consagra o mal como bem."

Joaquim de Flora (Gioacchino da Fiore)
Joaquim de Flora
Uma das fontes iniciais de inspiração dos movimentos revolucionários foram as idéias do místico italiano Joaquim de Flora (Gioacchino da Fiore), que nasceu e viveu em Calábria, no sul da Itália. O abade e eremita se tornou extremamente influente - ele quase converteu dois papas às suas idéias, chegando muito perto de transformá-las em doutrina católica ortodoxa.

Lendo as profecias da Bíblia, concentrando-se no Livro da Revelação, Joaquim chegou à conclusão de que a história estava destinada a passar por 3 estágios sucessivos. O primeiro estágio foi a era do Velho Testamento, a era do Pai (na Santíssima Trindade), a idade da Lei que seria governada pelo temor. O segundo estágio seria iniciado por Jesus, a era do Filho, do Novo Testamento, a era Cristã, a idade da Fé e Submissão.

Então, inevitavelmente, chegaríamos à terceira etapa: a era do Espírito Santo, que seria quando a "confusão" começaria, por assim dizer. Seria uma era de alegria e liberdade perfeitas e o fim da história humana. Essa era de perfeição, segundo Joaquim de Flora, seria o fim da propriedade privada, onde ninguém possuiria nada e ninguém trabalharia porque todos seriam espíritos puros e sem corpo.

"A Era do Espírito será o sabbath ou período de descanso para a humanidade. Nela não haverá riqueza e nem sequer propriedade, pois todos viverão em pobreza voluntária; não haverá trabalho, pois seres humanos possuirão apenas corpos espirituais e não precisarão de alimento; não haverá autoridade institucional de nenhum tipo. ... O mundo vai se tornar um único e vasto monastério onde os homens serão monges comtemplativos envolvidos continuamente em êxtase místico até o dia do Juízo Final."

Como muitos tipos messiânicos, Joaquim estava certo de que essa era chegaria em breve, mas não muito breve: cerca de 1260. Essa era seria inaugurada por uma vanguarda. Quando a Ordem Franciscana começou por volta de 1213, os franciscanos mais rigorosos, que eram anti-propriedade, se consideravam Joaquimitas.

No entanto, os Joaquimitas foram muito além do que o abade pregara. Eles chegaram a abolir a Bíblia e adotar os 3 livros de Joaquim como "evangelho eterno", considerando-o superior ao evangelho do Cristo, já que a era do Espírito chegaria em breve.

Na mesma época, na Universidade de Paris, que era um grande centro de estudos teológicos, um professor de teologia e favorito da corte francesa, Amaury (Amalric) de Bena, se inspirou no Joaquimismo e ganhou adeptos para suas idéias mas sua doutrina foi condenada pelo papa. Ele foi forçado a renegar sua doutrina, morrendo logo em seguida, enquanto os Amaurianos foram perseguidos até a extinção do movimento.

A tese de Amaury era a de que todos os cristãos seriam "membros de Cristo" e teriam sofrido com Ele na cruz. Os Amaurianos acreditavam que tudo era permitido porque Deus teria criado tudo, incluindo o bem e o mal, e que se Deus estava em todas as pessoas (panteísmo), eles podiam se comportar como bem quisessem (antinomismo).

Pierre, o Pródigo, uma vez comentou sobre os estudantes contemporâneos de Amaury: "No comer e no beber eles não têm igual. Eles são devoradores à mesa, mas não se devotam à Missa. No trabalho, eles bocejavam; e num banquete eles não temiam a ninguém. Eles abominavam a meditação sobre os livros sagrados, mas amavam ver o vinho cintilar em seus copos e o engoliam intrepidamente."

Cada era, conforme explicada pelos Amaurianos, tinha uma encarnação de Deus: a do Pai teria como encarnação Abraão, a era do Filho teria como encarnação Jesus. E quem seria a encarnação de Deus na terceira era? Obviamente, os próprios Amaurianos! Isso acontece com todas as doutrinas de "terceira era": seus adeptos ocupam o papel de Messias em seus próprios olhos, aqueles que vão dar cumprimento à história humana. Os Amaurianos se proclamavam Deuses Vivos, os Eleitos, a concretização do Espírito Santo. Segundo sua crença todos se tornariam Espírito Santo eventualmente.

Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas
Detalhe da pintura "Jardim das Delícias
Terrenas" de Hieronymous Bosch, sobre o qual
se especula que tenha sido simpatizante da
seita Irmandade do Livre Espírito.
No início do século XIV, surgem vários grupos descentralizados, cada um com seu próprio messias e artigos de fé, que continuam essa tradição revolucionária e ficaram conhecidos como "Irmandade do Espírito Livre". Essa irmandade se espalhou por Champanhe, Thüringen, Bruxelas, Colonia, Bavaria e outras regiões. Os alemães os chamavam de Luftmenschen (homens do vento) e eles eram como um movimento nômade no estilo hippie. Os Luftmenschen acrescentaram uma idéia derivada da obra de Plotinus: a reabsorção em Deus, que viria depois do período comunista. Eles também acrescentaram um viés elitista - haveriam dois tipos de pessoa na Irmandade do Espírito Livre: os crus em espírito, que tinham que morrer primeiro, e os sutis em espírito, a gloriosa minoria que exerceria o papel de liderança.

Estes se tornariam Deus Vivo no tempo de sua existência terrena. Essa liderança alcançaria a divindade através de anos de treinamento, com tortura auto-imposta, visões, etc. Eles se diziam mais perfeitos e mais divinos que o próprio Cristo porque estariam na terceira era e proclamavam autoridade sobre a Trindade. "Deus criou todas as coisas e eu criei todas as coisas com Ele." E se eles eram como Deus, seria impossível para eles pecar. Por definição, qualquer coisa que eles fizessem não poderia ser pecado, incluindo roubo, estupro, incesto e assassinato.

Também se aplica aí o que Olavo de Carvalho disse à respeito dos revolucionários modernos, "... identificaram-se de tal modo com o que lhes parece o bem, que mesmo o mal que praticam se transfigura, a seus olhos, automaticamente em bem. Atingiram, enfim, a seus próprios olhos, o estágio divino da impecância essencial. Daí que, neles, a total falta de escrúpulos e a prática costumeira da violência criminosa coexistam sem maiores problemas com uma fé perfeitamente sincera na própria bondade, santidade até ..."

Segundo Nicolas de Basel, só haveria um único pecado: desobedecer Nicolas de Basel. Ele liderava seu próprio movimento de Espírito Livre, os Beghards, que praticavam a nudez durante as missas. Cada discípulo devia obediência absoluta à Nicolas de Basel, e qualquer desvio recebia punição sumária.

Como era impossível eles pecarem, eles podiam fazer qualquer coisa, incluindo roubar a propriedade alheia, afinal, eles eram os eleitos. O bispo de Strasburg resumiu dizendo "eles acreditavam que tudo era em comum, portanto o roubo era legal para eles."

Johann Hartman, um abade do Espírito Livre em Erfurt, Alemanha, dizia "o verdadeiro homem livre é soberano e senhor de todas as criaturas, portanto tudo pertence à ele e ele tem o direito de usar tudo como lhe convém. Se alguém se opor, ele tem o direito de matá-lo e tomar seus bens."

Outro provérbio favorito da Irmandade do Espírito Livre era "qualquer coisa que os olhos vejam e cobicem, seja tomada pelas mãos." Que grande teoria moral!

Um dos primeiros grupos comunistas foram os Adamitas da Bohemia, nos séculos II, III e IV, e mais tarde revivido pelos Neo-Adamitas nos séculos XV e XVIII. Nesse movimento os bens eram propriedade coletiva e qualquer homem podia escolher a mulher que desejasse e ela teria que obedecer - o casamento era "pecado". Cada um desses grupos deu sua própria contribuição ao movimento revolucionário e a dos Adamitas foi a de que eles andavam nus na maior parte do tempo - a nudez santificada, onde eles alegavam recuperar a inocência primordial de Adão e Eva. A promiscuidade era obrigatória e decidida pelo líder Adamita. O movimento Adamita foi o primeiro a adotar a foice como símbolo. Eles se consideravam a foice divina que ceifaria as vidas dos não-Adamitas.

No início do século XV, aparece o ingrediente final de tudo isso com o movimento dos Taboritas, um grupo que é considerado pré-protestante e que viveu na cidade de Tabor no norte da Bohemia durante as guerras hussitas (mesma região da República Tcheca contemporânea). Esse movimento trouxe o conflito de classes entre Tchecos e Alemães, não-católicos e católicos e patrícios e plebeus. Os Taboritas acreditavam no dever divino de acabar com o pecado exterminando todos os hereges e pecadores, isto é, todos os não-Taboritas. "Todo crente deve lavar suas mãos no sangue dos inimigos do Cristo."

Os Taboritas não apenas perseguiam os não-Taboritas como também queimavam livros, imagens, pinturas e bibliotecas. Com a chegada do reino de Deus na Terra, não haveria necessidade de ensino. Os Taboritas também pregavam o retorno à uma "idade perdida" do comunismo, isto é, a crença de que em algum ponto da história não houvera propriedade privada e tudo era perfeito.

Obviamente, para os Taboritas era necessário exterminar os centros urbanos, que seriam centros de pecado, avareza, luxúria e cobiça, assassinando os senhorios e as demais pessoas. E assim que os Taboritas implantassem seu reino comunista na Bohemia, eles o espalhariam para o resto do mundo. "Quem quer que possua propriedade privada comete pecado mortal."

Uma das características do movimento comunista em geral, e que ficou retratado nos Taboritas, é o "comunismo das mulheres". Os padres/pastores Taboritas pregavam que todo corpo, incluindo o das mulheres Taboritas, seria propriedade comum - não haveria casamento e nem esposas - todas as mulheres seriam possuídas em comum. Se um marido e uma mulher fossem vistos juntos, eles seriam espancados ou executados de várias formas.

Eles tinham um armazém central de onde todos podiam consumir o que precisassem. Ao mesmo tempo, os Taboritas eram isentos de trabalhar, pois se diziam divinos. O resultado foi que poucos trabalhavam, todos pegavam os alimentos do armazém central e não sobrava nada - um típico problema do comunismo. Então eles passaram a roubar e exterminar todo mundo em volta de Tabor, embora houvessem Taboritas moderados que foram contra essa prática de viver do trabalho alheio. O experimento entrou em colapso, mas continuou de forma intermitente à medida que a idéia foi adotada por outros grupos.

Mapa do Protestantismo
Com a Reforma Protestante, mais desses grupos surgiram. Um deles, os Anabatistas (não confundir com os Batistas suiços Menonitas) ficaram notórios e muito se poderia relatar sobre eles. O grupo de anabatistas liderado por Thomas Müntzer foram os primeiros anabatistas comunistas. Müntzer começou como padre e se tornou luterano. Lutero o recomendou para um dos maiores pastorados em Zwickau na Saxônia em 1520, e em breve se arrependeria. Müntzer então encontrou Nicholas Storch, que com a antiga doutrina dos Taboritas, o influenciou na direção do radicalismo.

Müntzer passou a ir de cidade em cidade - normalmente sendo expulso de cada uma delas - mas conseguiu mais e mais adeptos. Diz-se que uma vez ele foi à Tchecoslováquia e começou a pregar para os tchecos. Infelizmente ele não sabia falar tcheco e eles não sabiam falar alemão. Como se pode imaginar, a pregação foi um fracasso!

Com o tempo, Müntzer formou uma organização revolucionária chamada "Liga dos Eleitos" com o objetivo de transferir o poder político da nobreza para as pessoas comuns. Os nobres deveriam abdicar de seus títulos e se juntar aos camponeses - Müntzer os ameaçou dizendo que se não concordassem, todos os duques e príncipes seriam exterminados. Müntzer então se envolveu na guerra dos camponeses em 1524-25.

A Liga dos Eleitos tomou a cidade de Muehlhausen e lá implantou um regime comunista onde tudo era tirado das pessoas de acordo com suas habilidades e tudo era dado a elas de acordo com suas necessidades. No auge da guerra dos camponeses, Müntzer liderou 6 mil habitantes de Muehlhausen num ataque à Langensalza, na batalha de Frankenhausen, que foi um fracasso total (5 mil mortos) pois os camponeses estavam praticamente desarmados. No céu havia um arco-íris e isso foi interpretado com sinal divino. Müntzer havia dito aos camponeses que Deus lhe prometera a vitória e que as bolas de canhão seriam detidas com sua capa.

Por volta de 1531, um outro experimento comunista foi realizado na cidade de Münster (Müntzer já estava morto mas vários de seus discípulos continuaram a espalhar suas idéias). A cidade foi governada pelo líder religioso Jan Bockelson (João de Leyden) com o auxílio de Bernt Rothmann. Ao contrário dos movimentos anteriores, Bockelson evitou o assassinato das populações vizinhas, preferindo apenas expulsá-los com somente a roupa do corpo durante tempestades de neve, forçando-os a abandonar seu dinheiro e propriedade - prática que foi copiada pelo regime do Pol Pot na Cambodia mais tarde. Católicos, luteranos e pessoas neutras que queriam evitar problemas - mais da metade da população - começaram a fugir da cidade mas, ao mesmo tempo, vários grupos anabatistas sob perseguição feroz conseguiram migrar para Münster pois a consideravam a Nova Jerusalém e suas tentativas de tomada de poder em outros lugares foram mal-sucedidas.

Depois de correr nu pelas ruas em frenesi, alegadamente depois de um êxtase espiritual que durou 3 dias, Bockelson se proclamou Rei do Povo de Deus e Governante da Nova Sião. Bockelson confiscou e baniu o uso de dinheiro - todos foram forçados a trabalhar sem salário e receberiam rações concedidas de acordo com a bondade dos governantes. Bockelson usou esse dinheiro confiscado para comprar coisas fora de Münster e viver com sua corte na luxúria. Ao mesmo tempo, a população passou a viver em extrema penúria.

Bockelson também inaugurou a grande era da pena de morte, implantando um novo código de leis que prescrevia punição capital para todos os crimes, contravenções, falhas e defeitos de caráter. Desde traição e adultério até queixumes, bate-bocas e ser mal-criado com os pais - tudo isso era punido com pena de morte imediata. Depois Bockelson instituiu a poligamia e adquiriu 15 esposas e Rothmann ficou com 9. Também foi praticado o "comunismo das mulheres" - a promiscuidade compulsória - em Münster.

Em 1535, a cidade passava fome e, com uma mal-sucedida investida contra as forças do príncipe e bispo católico Franz von Waldek, que estava sitiando a cidade, o movimento acabou e a população foi exterminada.

Houveram grupos comunistas no século XVII, na guerra civil na Inglaterra: dois dos mais notáveis foram os Quinto-Monarquistas e os Diggers. O primeiro foi um movimento religioso quase político proeminente de 1649 a 1661 que quis reformar o parlamento e o governo para a chegada iminente do Reino de Cristo na Terra e o último foi um grupo religioso puritano que defendia a abolição da propriedade privada da terra.

Enquanto uma pessoa normal reage ao movimento Bockelsoniano e a Liga dos Eleitos com horror, os historiadores liberais e marxistas adoram os experimentos de Müntzer e Münster pois foram, sem dúvida, comunistas e apoiados pelas camadas mais baixas e marginais da população.

(No próprio site Marxists.org há o livro de Karl Kautsky, "Communism in Central Europe in the Time of the Reformation", em que ele defende praticamente todos esses movimentos. Um outro livro do esquerdista Kenneth Rexroth também faz apologia desses movimentos.)

Diz Cohn, "Desde Engels até os historiadores comunistas de hoje - russos bem como alemães - os marxistas têm inflado Müntzer em um símbolo gigante, um herói prodigioso na história do conflito de classes." Os comunistas estão certos em tomar o profeta medieval Müntzer como ídolo, mas não do jeito que eles pensam. Os marxistas, como Müntzer, não fazem nada além de explorar o descontentamento social e estão totalmente despreocupados - apesar de suas alegações - com a erradicação de suas causas. De fato, os marxistas necessitam de descontentamento social para continuar ininterruptamente, pois, sem esse descontentamento, não há nada que se possa mostrar a favor de seu comunismo, seu "paraíso terrestre".

O comunismo surgiria novamente pouco antes da revolução francesa, um pouco mais secularizado, e houve disputa entre secularistas e pós-milenialistas até 1848. Ambos cristãos-hereges comunistas e ateus comunistas concordam em tudo exceto no trabalho preparatório. Um problema que os ateus comunistas tiveram foi como chegar à uma era de mudanças sociais. Para os pós-milenialistas, Deus traria essa era histórica e seria inevitável: o Messias ou o profeta retorna e inaugura a nova era. Os ateus, não querendo contar com Deus, Messias ou profetas da terceira era, primeiro propuseram que essa era seria trazida com a educação do público, mas Marx queria retratar como algo inevitável e "científico", e encontrou essa alegada inevitabilidade com a alienação e a dialética Hegeliana.

Cohn observou que a "busca do milênio" tem a ver tanto com as heresias medievais quanto com o comunismo e o nazismo. "Da mesma forma que nessas obras [marxistas] os profetas de um mundo pregresso são mostrados como homens nascidos séculos antes de seu tempo, é perfeitamente possível demonstrar o oposto moral - que, apesar de todo o uso que fizeram da tecnologia mais moderna, o nazismo e o comunismo foram inspirados por fantasias que são inequivocamente arcaicas. E tal é, de fato, o caso. É possível demonstrar (embora para fazê-lo em detalhe seria necessário outro volume) que as ideologias do comunismo e nazismo, dissimilares que sejam em vários aspectos, ambas devem muito àquele velho conjunto de crenças que constituíram o folclore apocalíptico popular da Europa."

Nas palavras de Olavo de Carvalho, "O movimento revolucionário é um fenômeno único e contínuo ao longo do tempo, pelo menos desde o século XV. ... É, desde suas origens, um esforço para tomar o lugar do Cristo anunciado no Apocalipse e substituí-lo por um agente terrestre no papel de salvador da humanidade. ...

Tudo o que Karl Marx viria a pensar e dizer - com exceção do pretexto materialista-dialético e das estatísticas que ele falsificou dos célebres Blue Books do parlamento britânico - já estava nas doutrinas dos heresiarcas messiânicos desde o século XIV. Tudo: a luta de classes, a revolução, a socialização dos meios de produção, a ditadura do proletariado, a missão da vanguarda revolucionária. Até as idéias de Lênin e de Gramsci já estão ali claramente antecipadas.

John Knox, John Huss, Thomas Münzer e outros "profetas" das origens da modernidade não são apenas precursores do movimento revolucionário mundial: são seus criadores. ... A idéia central da revolução messiânica pode-se resumir em quatro pontos:

(I) a humanidade pecadora não será salva por Nosso Senhor Jesus Cristo, mas por ela mesma;
(II) o método para alcançar a redenção consiste em matar ou pelo menos subjugar todos os maus, isto é, os ricos;
(III) os pobres são inocentes e puros, mas não entendem seu lugar no projeto da salvação e por isso têm de colocar-se sob as ordens de uma elite dirigente, os "santos";
(IV) o morticínio redentor gerará não somente a melhor distribuição das riquezas, mas a eliminação do mal e do pecado, o advento de uma nova humanidade. ...

A evolução subseqüente do movimento revolucionário [foi] marcada por uma permanente tensão entre a fé herética e a negação de toda fé, entre o pseudocristianismo e o anticristianismo, entre a ambição de destruir o cristianismo e o desejo de conservar algo dele para poder parasitar a sua autoridade."


O matemático russo Igor Shafarevich também reconhece a continuidade histórica do movimento revolucionário. Shafarevich, em seu livro "The Socialist Phenomenon" (1980) , afirmou que o impulso utópico esquerdista é uma renascimento da religião gnóstica, que é enraizada na rebeldia. Esse ímpeto anti-Cristão luta obsessivamente contra o estado normal do mundo, exigindo igualdade material e a erradicação de distinções individuais e de gênero. Shafarevich concluiu que "a morte da humanidade não é apenas o resultado concebível do triunfo do socialismo - ela constitui o objetivo do socialismo."

Nesse livro, Shafarevich estudou as manifestações de tendências socialistas em várias civilizações, incluindo o império inca, a Grécia clássica,
Mesopotâmia, China antiga e Egito dos faraós. Ele afirmou que o socialismo tem 2 arquétipos: o despotismo da idade antiga (ex.: Suméria, Babilônia e Egito) e as seitas e movimentos milenaristas da Europa medieval, bem como um instinto de morte Freudiano. Dessa combinação, essa ideologia tenta adquirir o prestígio da ciência e da fé no progresso.

Artigos de Olavo de Carvalho relacionados à continuidade do movimento revolucionário:
Educando para a boiolice
Para compreender a revolução mundial
O inimigo é um só
Existem semelhanças entre Osama Bin Laden e Che Guevara?


Artigos de Murray Rothbard sobre a "esquerda religiosa":
The Menace of the Religious Left
Saint Hillary and the Religious Left





Eis uma amostra da profunda desonestidade, patifaria dos esquerdistas: este artigo do site Marxist.com faz uma citação do livro de Norman Cohn. O artigo inteiro é uma difamação aos cristãos medievais para tentar avançar suas idéias comunistas e ao mesmo tempo cita "The Pursuit of the Millennium", um livro que sobretudo mostra que as utopias comunistas são fruto do mesmo fanatismo que o artigo critica.

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sábado, maio 05, 2007

Cavalheirismo e Masculinidade Cristã

Raising a Modern-Day Knight
(Texto resumido de Knighthood and Biblical Manhood, do autor Lou Whitworth, que por sua vez é condensado do livro de Robert Lewis)

C. S. Lewis escreveu sobre dois impulsos opostos que normalmente são encontrados em indivíduos diferentes - bravura e gentileza - e que formam a síntese ideal na figura do cavaleiro medieval e seu código de cavalheirismo. Se uma dessas inclinações dominasse por completo, perder-se-ia o equilíbrio necessário para uma autêntica masculinidade cristã. Força e poder sem benevolência, por exemplo, resultariam em um homem bruto. Ternura e compaixão sem a firmeza masculina produziria um homem sem o fogo para liderar e inspirar os demais.

Manter o equilíbrio certo entre os impulsos de poder e agressão e a necessidade de ser gentil e compassivo é um desafio para os homens. Numa época de confusão de gêneros e confusão social-espiritual como a nossa, onde os violentos ameaçam a sociedade, são preciso diretrizes claras e modelos que possam inspirar os homens a canalizar sua agressividade para propósitos construtivos.

A metáfora do cavaleiro medieval tem seu valor por estimular a imaginação, com seu código de honra e seu chamado à coragem. No ensaio de C. S. Lewis, "A Necessidade do Cavalheirismo", ele descrevia o ideal medieval do cavalheiro como um paradoxo: esse ideal ensinava a humildade e tolerância aos grandes guerreiros e exigia coragem dos homens modestos.

O cavalheirismo provê os homens com ideais nítidos - a visão de masculinidade, o código de conduta e uma causa transcedente - além de um processo de avanço de pajem a cavaleiro com cerimônias de celebração e validação.

As cerimônias são importantes por marcar os eventos da jornada rumo à maturidade para que se tornem inesquecíveis. Depois de disciplinas físicas, mentais e religiosas elaboradas, sob as quais o pajem se submetia, nenhum cavaleiro tinha dúvida - "sou um cavalheiro?" - porque tal questão estava para sempre resolvida pelas cerimônias em presença de outros homens.

Lewis escreveu "Uma das grandes tragédias da cultura ocidental de hoje é a ausência desse tipo de cerimônia... Eu não conseguiria descrever o impacto na alma de um jovem quando um momento importante de sua vida era para sempre tornado memorável e venerado através de uma cerimônia."

Há estágios naturais na vida de um jovem que se prestam para celebração: a puberdade, a graduação escolar e a maioridade. Esses estágios encontram equivalência nos estágios da vida de um cavalheiro: pajem (aprendiz de cavaleiro aos 13 anos), escudeiro (auxiliar de cavaleiro) e ordenação (quando o escudeiro se torna um cavaleiro).

Os ideais do cavalheirismo compreendem a visão de masculinidade, o código de conduta e uma causa transcedente. A visão de masculinidade rejeita a passividade, incentiva à coragem e à busca de grandes recompensas. Esse é um caminho ideal para direcionar a agressividade inata dos homens.

O código de conduta almeja as virtudes bíblicas de lealdade, graciosidade, humildade, pureza, serviço, liderança, honestidade, auto-disciplina, excelência, integridade e perseverança. O cavalheiro dá valor ao trabalho e ao estudo, e, evitando a preguiça, solidifica sua ética de trabalho. Outro aspecto do cavalheiro é o de se dedicar à uma mulher. O código de cavalheirismo requer que todas as mulheres sejam tratadas com respeito e honra.

A causa transcedente é obedecer à vontade de Deus. Os homens desde cedo devem compreender a vida como algo inerentemente moral e compreender que há Deus, que sabe de tudo, recompensa o bem e pune o mal. Desde cedo devem aprender que há valores absolutos e que os mandamentos de Deus são libertadores e não coercitivos.

Lewis declarava que "A verdadeira satisfação na vida é diretamente proporcional à obediência à Deus. Nesse contexto, os limites morais revelam uma nova perspectiva: se tornam benefícios e não encargos."

A vida de uma pessoa não é satisfatória se for vivida apenas para si mesma. Jesus afirmou que ao dar sua vida, você encontrará sua vida. Assim, dedicar sua vida à causa transcedente - Jesus - que é maior que sua própria pessoa, é o caminho para uma vida feliz e completa. A causa transcedente é verdadeiramente heróica - uma busca que exige bravura e sacrifício. É verdadeiramente atemporal - tem significância além do momento. E é supremamente importante - não fútil.

Depois de uma vida no estudo de culturas e civilizações antigas e modernas, a eminente e controversa antropóloga Margaret Mead fez a seguinte observação: "O problema central de toda sociedade é definir papéis apropriados para os homens."

O autor George Gilder teve inspiração similar quando declarou que "Sociedades sábias provêm amplos meios para os jovens rapazes se afirmarem sem afligir os outros."

Os homens precisam de papéis apropriados que sejam considerados de valor e de inspiração para desempenhá-los. Isso é verdadeiro porque os homens são psicologicamente mais frágeis que as mulheres e sofrem mais com sua identidade do que as mulheres. Os homens, mais do que as mulheres, dependem da cultura. Por isso é que é importante ter uma visão cultural de masculinidade.

Na sociedade moderna ocidental, os rapazes realizam sua jornada à maturidade sem uma visão clara do que realmente seja a maturidade. Se eles ficam fora de controle, toda sociedade sofre. Ao declínio do cavalheirismo, que inspirava o "jogo limpo" e a esportividade, corresponde um aumento paralelo da atitude insultosa e de "ganhar a qualquer preço". Onde não há visão, as pessoas perecem (Provérbios 29:18).

Há um aspecto de tudo isso que precisa ser enfatizado. Para inspirar os jovens a se tornarem cavalheiros modernos, é necessária a companhia de homens devotos - a Távola Redonda. Como escreveu Robert Lewis em seu livro "Raising a Modern-Day Knight: A Father's Role in Guiding His Son to Authentic Manhood": "os rapazes se tornam homens em uma comunidade de homens. Não há substituto para esse componente vital... para seu filho se tornar um homem, a comunidade deve ser convocada. Se a presença do pai já é significativa, a presença de outros homens será ainda mais... e a comunidade dos homens resultará em uma amizade mais profunda que os solitários nunca experimentam e essa comunidade expandirá os recursos espirituais e morais de seu filho."




Segundo Christopher Chantrill, estamos numa sociedade de adolescentes. Desde os anos 60, a etapa de adolescência se estendeu para além dos 18 anos. Não há mais cerimônias que marcam a passagem para a idade adulta. Os jovens são educados apenas para a produtividade econômica. Os jovens são bombardeados com a idéia de que violência não resolve nada ao mesmo tempo que são bombardeados com a violência virtual na mídia.

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sábado, abril 21, 2007

Artigo Recomendado: O Desafio Islâmico - Cruzada e Jihad

O Desafio Islâmico - Cruzada e Jihad

Conferência do pensador liberal J. O. de Meira Penna, realizada no Conselho Técnico, Confederação Nacional do Comércio Rio de Janeiro/RJ em Maio de 2003.

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quinta-feira, março 22, 2007

Método pedagógico porno-marxista usado nas escolas

Eis o empacto que parece resurgir da nova educação no Brasil que agora segue uma "visão filosófica engajada (para além da hipocrisia)" segundo homens éticos como Marina da Silva (como diz uma prova de filosofia da UFPE):

"Acabei de tirar minha filha, de 14 anos, do Colégio Pentágono/COC (unidade Morumbi - São Paulo) em protesto contra o método pedagógico "porno-marxista" adotado pela escola no ensino médio este ano. O sistema COC, que começou como cursinho pré-vestibular há cerca de 40 anos em Ribeirão Preto-SP, está implantado hoje em mais de 150 escolas em todo Brasil, atingindo cerca de 200 mil alunos. O Pentágono -- que, além do Morumbi, tem colégios em Alphaville e Perdizes -- é é uma das escolas-parceiras." (continua...)

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quinta-feira, janeiro 11, 2007

Curso Recomendado (mp3): 12 Governantes Bizantinos - a História do Império Bizantino

Quantos sabem que houve um imperador que decidiu largar tudo para plantar repolhos?

Quem poderia não apreciar a estória do genial Belisário, um general invencível e incorruptível?

Como não achar graça de Paulo, o Gago? Um patriarca de Alexandria nervosinho cujo sermão poucos conseguiam entender e que, sendo excomungado, tentou excomungar o Papa de volta.

Por essas e outras, "Twelve Byzantine Rulers: The History of the Byzantine Empire" se tornou um curso bastante popular dentre os programas educativos disponíveis em MP3. Lars Brownworth, um professor de história em Long Island-NY, consegue tornar interessante o Império Bizantino até mesmo para quem não gosta de história.

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segunda-feira, janeiro 08, 2007

Um retorno ao cavalheirismo?

Baseado no texto de Terrence Moore, em Agosto de 2001.

O cavalheirismo, um sistema rigoroso de regras morais e de costumes, por raro e ateanuado que seja em sua forma atual, ainda retém um lugar significativo na memória do homem contemporâneo. Pode ser surpreendente que uma geração criada com um nível tão raso de disciplina possa se importar com o cavalheirismo - uma ética que encoraja o auto-controle sexual e o serviço dos homens em favor das mulheres.

Alguns jovens rejeitam a revolução sexual e as lutas das feministas para criar um mundo andrógino. Seus anseios mais profundos são por um mundo onde homens virtuosos respeitam e protegem mulheres recatadas.

Eis uma resposta típica de uma jovem à pergunta de exame "O sistema de costumes conhecido como cavalheirismo foi necessário na Idade Média mas é irrelevante hoje."

"O cavalheirismo parece, de fato, ter se tornado irrelevante hoje e isso é uma perda trágica para ambos homens e mulheres. As mulheres se recusam a exigir dos homens o padrão necessário para atingir a honra elegante que perdemos. As mulheres são desrespeitadas na sociedade de hoje porque não pedimos nada acima disso. Não há provavelmente nenhuma mulher que, em alguma parte de seu coração, não gostaria de ser levada na garupa de um cavalo por um cavalheiro em armadura reluzente, mas nós não mais admitimos isso. Nós somos ensinadas a nos declarar iguais aos homens em todos os aspectos e de que não precisamos de tratamento superior. Se as mulheres reconhecessem que o cavalheirismo era uma maneira de demonstrar respeito e devoção, e não condescendência, teríamos alguma esperança de recuperar esse sistem de virtude que foi perdido."

A questão é como mostrar as pessoas o caminho para essa conclusão e incentivá-las a agir com base nisso. A libertação da sexualidade vulgarizada e da androginia forçada começará somente quando os jovens se voltarem para a criação de um novo cavalheirismo. Em outras palavras, homens devem voltar a agir como homens e mulheres, como mulheres; e um certo padrão de decência deve governar suas relações.

Quando se pensa em se o cavalheirismo acabou, inicialmente se pensa em se os homens ainda abrem as portas para as mulheres ou se deviam abrir. Outras cortesias que os homens costumavam praticar, e que os jovens de hoje nunca viram ou ouviram falar, são tais como se levantar quando uma dama entra no recinto. As mulheres, com poucas exceções, sentem falta dos dias em que os homens agiam como cavalheiros.

Nossos bisavós deplorariam a prática moderna de usar chapéu (ou boné) à mesa: "Em meu tempo, uma dama não se sentaria à mesa com um homem que não tirasse o chapéu". Em épocas passadas, a sociedade reconhecia nas mulheres um talento natural para arbitrar as boas maneiras.

Até que pondo o comportamento não-cavalheiresco se tornou normal nos homens? Por exemplo, hoje em dia há uso inveterado de palavrões. É compreensível a relutância das mulheres que, naturalmente dispostas a agradar, não queiram perturbar as conversações corrigindo alguém, mas as mulheres podem incentivar a criação de um ambiente de cavalheirismo ao insistir para que os homens parem de usar linguagem de baixo calão, se necessário, deixando sua presença.

Mais do que apenas a má linguagem, as mulheres devem ter experimentado uma forma mais ameaçadora de indecência. A maioria não gosta de receber assovios, ou gritos, ou serem feitas de objeto de insinuação sexual. A cena típica de uma mulher na rua sendo chamada de dentro de um carro cheio de rapazes jovens. Nunca se sabe se essa manifestação pode avançar para algo mais perigoso, especialmente em certos lugares da cidade, à noite ou em ruas desertas.

Um rapaz jamais tem de se preocupar com um grupo de mulheres que esteja o cercando. Do ponto de vista de uma mulher, o ataque verbal, além de ser degradante em si, é sempre um ataque físico em potencial. Uma mulher sabe que um carro cheio de adolescentes, quaisquer que sejam suas intenções, pode agarrá-la sem que ninguém venha em seu socorro. Um homem jovem não tem preocupação equivalente. Assim, há uma diferença entre os sexos, e essa diferença requer um código de costumes específico por gênero, em vez de ser neutro em relação ao gênero.

"Ser homem não é apenas uma questão de ser do sexo masculino e atingir uma certa idade. Esses são atos da natureza; ser homem é um ato de manter o caráter. Não é mais fácil se tornar um homem do que se tornar virtuoso. Na verdade, os dois são a mesma coisa. A raiz dessa palavra fora de moda, "virtude", é a palavra "virtus" em Latim, um derivado de "vir", ou homem. Como entendido por Aristóteles, virtude é uma "moderação" entre os extremos de excesso e deficiência. Muitas vezes, entre os jovens de hoje, os extremos predominam. Um extremo sofre de excesso de masculinidade, ou energias masculinas mal direcionadas e não refinadas. O outro extremo sofre de falta de masculinidade, uma total escassez do espírito masculino. Chamemo-los de bárbaros e bolhas. Esses dois tipos de erro são tão comuns que a prescrição para esses males pode ser reduzida a duas instruções simples: não seja um bárbaro, não seja um bolha. O que restar, ceteris paribus, será um homem."
- Terrence Moore.
O cavalheirismo foi muito importante na história da civilização ocidental. O cavalheirismo surgiu e foi implantado lentamente nos costumes em resposta à uma das mais graves crises na história do Ocidente: o total colapso da civilização depois da queda do Império Romano no século V D.C e depois do colapso do Império Carolíngeo, mais precário, no século IX. Jamais houve um período onde a vida normal fosse tão "solitária, pobre, terrível, brutal e curta". Não havia governo. Não havia força policial. As pessoas e suas propriedades estavam completamente à mercê de homens muito maus. Esses homens eram chamados de "jovens", em parte pela sua idade e em parte porque possuíam uma energia jovial e desrespeito por qualquer ordem antiga e estabelecida.

Esses jovens a cavalo vagavam em bandos e saqueavam qualquer vestígio de civilização que encontrassem: famílias, igrejas, fazendas, mercados. Como todos os rapazes, eles tentavam encontrar moças. Não tendo nenhum respeito ou decência, seu método era simples: tomavam para si qualquer mulher que encontrassem. Tomavam viúvas, esposas, filhas e até freiras, em qualquer lugar que pudessem encontrá-las. Os jovens homens não tinham noção de galanteio. Seu desejo pelo sexo oposto se expressava em violência sexual. Em suma, o comportamento dos rapazes durante aquela época não era muito diferente do comportamento das gangues de hoje em dia.

A solução para essa crise veio através de uma mudança gradual nos motivos e costumes dos cavaleiros armados. Homens estabelecidos, a Igreja, e as moças combinaram forças para domar as paixões desordenadas desses predadores violentos. A liberdade masculina se transformou em dever. Para se tornar verdadeiros cavalheiros, os rapazes tinham que se submeter a um conjunto elaborado de regulações conhecido como cavalheirismo, que os incluíam na ordem social e estabeleciam-nos em casamentos com belas e ricas herdeiras. Para se tornar um cavalheiro, os jovens tinham que se submeter a um regime de treinamento ético que os preparava para uma vida de serviço.

O elemento do perigo e do empreendimento era mantido em suas vidas já que eles tinham que proteger sua pátria e suas mulheres. A idéia de honra masculina surgiu disso. Se tornou desonrável para um homem forte intimidar ou agredir alguém fisicamente mais fraco. O ritual de exibição de cavalheirismo era os torneios. Nenhum outro evento permitiu aos jovens cavalheiros brilharem tanto quanto essa exibição de coragem e cortesia em combate diante dos olhos de donzelas ansiosas e seus pais criteriosos. O torneio não era simplesmente um jogo ou um esporte. As virtudes e habilidades marciais desenvolvidas preparavam os jovens para embates contra inimigos domésticos e externos nessa época sem leis. O respeito dado às damas garantia que a energia masculina jamais fosse empregada contra o sexo mais nobre, mas ao contrário, em sua defesa.

As jovens de hoje provavelmente podem sentir a situação das mulheres na Idade Média e, talvez, reconhecer que os costumes modernos estão se revertendo às condições pré-medievais. Apesar dos esforços das radicais feministas, androginistas e hiper-igualitaristas, e apesar de que provavelmente não tenham a menor idéia do que significa se tornar um homem, muitos rapazes desejam se tornar cavalheiros, algo mais do que garotos irresponsáveis ou "carinhas legais". Infelizmente, esse tipo de educação ética está totalmente ausente nas escolas, na cultura, e muito frequentemente, nos próprios lares.

Uma evidência desse anseio dos rapazes veio da fonte mais improvável: uma coleção de ensaios chamado "Entre Mães e Filhos" ("Between Mothers and Sons") cujas autoras são feministas, pacifistas, esquerdistas, mulheres dos anos 60. Apesar disso, essas mães descobrem em seus filhos algo que elas não ensinaram a eles: a natureza masculina. Uma das mães, Janet Burroway, descreve como ela encarou nervosamente as aventuras de seu filho com as idéias politicamente conservadoras e militares, e seu fascínio com as armas. Ela viu que as lições de costura que ela havia dado ao filho na esperança de torná-lo um pequeno feminista "foram postas em prática na costuras de cintos de cartucho de munição e roupa de camuflagem".

Em suma, mesmo até mesmo as várias mães feministas de hoje estão se descobrindo na situação da mãe de Sir Percival (das lendas da Távola Redonda), que nunca havia deixado seu filho ver um cavaleiro porque se um deles contasse a ele como era sua vida, seu filho desejaria se tornar um cavaleiro também. Na primeira vez que Percival viu os cavaleiros passarem na floresta, Percival soube que ele tinham que se tornar um deles. Quando sua mãe viu que seus cuidados não eram mais capazes de mantê-lo, ela apoiou Percival em sua decisão:

"Nobre filho, eu gostaria de ensiná-lo uma lição que você faria bem em ouvir, e se lhe aprouver lembrá-la, grande benefício lhe advirá. Você logo se tornará um cavaleiro, meu filho, se isso apraz a Deus, e eu aprovo. Se, próxima ou distante, você encontrar uma dama que precise de ajuda, ou uma donzela em perigo, não se obstenha de ajudá-la se elas pedirem; pois nisso está toda honra. Aquele que não honra as damas, perde sua própria honra. Sirva as damas e donzelas, e você receberá honra em todo lugar. Se você pedir um favor à alguma, evite ofendê-la e não faça nada que cause desgosto. Aquele que ganha um beijo de uma donzela receberá muito; se ela o permitir beijá-la, eu o proíbo de avançar além se, em minha memória, você dispor-se a respeitá-la... Nobre filho, fale com homens nobres e vá com eles; um homem nobre jamais dá mau conselho a aqueles que frequentam sua companhia. Acima de tudo eu rogo-lhe que entre na igreja e ministério e ore ao Nosso Senhor para que dê-lhe honra nesse mundo e conceda-o o modo de agir que chegue a um bom destino."

A mãe de Percival aprendeu que ela não podia negar a natureza de seu filho. As atuais tentativas de negar a natureza masculina se provaram nocivas à ambos homens e mulheres. A história do cavalheirismo nos ensina que os rapazes podem se tornar gentis, desde que eles possam fazê-lo em seus próprios termos, desde que a gentileza não reflita pusilanimidade, mas seja aliada à força e à honra.

No avanço dessas idéias o que está em jogo é a própria masculinidade dos homens. As mulheres podem perceber em que os homens podem se transformar e essa distante época do passado ainda pode se tornar novamente uma fonte de instrução viva. Atualmente há uma grande batalha cultural travada em cada esquina, cada escola e em cada família. É uma batalha pela decência. Em várias frentes, essa batalha está sendo perdida, mas ainda há tempo de virar.

Mais do que demonstrar interesse no cavalheirismo, os jovens podem começar a agir sob os princípios morais de sua natureza. Winston Churchill uma vez disse que a Segunda Guerra Mundial seria vencida pelo soldado desconhecido para que a batalha pela decência não fosse vencida por um grande pensador ou estadista ou mestre, mas que seria vencida por milhões de homens e mulheres comuns praticando seus deveres. O retorno do cavalheirismo requer que cada rapaz exercite sua coragem se tornando um cavalheiro e que cada moça exercite sua simplicidade em se tornando uma dama.

Terrence Moore, ex-fuzileiro naval e professor de história, é reitor da Ridgeview Classical Schools em Ft. Collins, Colorado.

Mais textos sobre o cavalheirismo e até exemplos atuais podem ser encontrados em ChivalryToday.com.

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postado por Fernando às      
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