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quarta-feira, abril 11, 2007

O Brasil com que José Bonifácio sonhou

Artigo do general reformado do Exército, doutor em ciência política, veterano da Segunda Guerra Mundial e conselheiro da Escola Superior de Guerra CARLOS DE MEIRA MATTOS.

O Brasil com que José Bonifácio sonhou

O que mais se conhece do nosso patriarca da Independência é a atuação hábil e competente como ministro do jovem d. Pedro, recém-empossado príncipe regente (em virtude do retorno a Portugal de seu pai, d. João 6º), interpretando os ardentes sentimentos separatistas dos brasileiros e conduzindo d. Pedro ao rompimento com a corte de Lisboa e ao "grito do Ipiranga".

Sobre tudo isso pensou e sonhou José Bonifácio para sua futura pátria. E os atuais estadistas de Brasília, em que pensam?

A projeção do santista José Bonifácio de Andrada e Silva na história do Brasil, entretanto, nos oferece outros cenários pouco divulgados que revelam o seu esclarecido e entranhado amor a sua terra natal, manifestado muito antes de regressar ao Brasil após 36 anos de ausência, 19 dos quais exerceu os mais altos cargos administrativos em Lisboa, foi mestre da Universidade de Coimbra e membro de academias de ciência.
Vivendo na Europa na fase efervescente dos progressos da Revolução Industrial e da difusão das aplicações da eletricidade, sonhou com que os benefícios daquela era chegassem ao Brasil.
Muito antes de seu regresso ao torrão natal (1819), empenhara-se em carta junto ao conde de Linhares, ministro do então príncipe regente d. João no Rio de Janeiro, no sentido de promover a imigração de colonos alemães especializados em metalurgia. Foi o precursor de um projeto siderúrgico para nossa terra. Conseguiu enviar ao Brasil os primeiros especialistas em metalurgia, os alemães Eschweg, Gotheld Felidmer e Varnaghen (pai do historiador). O conde de Linhares, em carta a José Bonifácio, informa que os havia encaminhado para a criação das fundições de ferro em Ipanema e Pirapora. Diz o conde, na mesma carta, que esperava que o destino que dera aos especialistas alemães tenha agradado a José Bonifácio (carta relatada pelo historiador Hélio Vianna).
Chegando ao Brasil, antes de ser tragado pela política da Província de São Paulo e, logo depois, pela crise efervescente provocada pelo retorno do rei d. João 6º e do "fico" do príncipe d. Pedro, José Bonifácio, acompanhado de seu irmão Martim Francisco, empreendeu uma viagem pelo interior de São Paulo, visitando as fundições de Ipanema, Pirapora e outras e colhendo material para pesquisas. Daí resultou a publicação de "Viagem Mineralógica no Interior da Província de S.Paulo". Propunha também a criação de fundições de ouro, prata e chumbo. Empolgava-lhe a idéia de que o Brasil participasse da era de progressos que a Revolução Industrial começava a proporcionar aos europeus.
É triste constatar que abandonamos os sonhos do nosso patriarca, atrasamo-nos enormemente na implantação de uma indústria siderúrgica que só foi inaugurada em Volta Redonda em 1946.
Mas José Bonifácio revelou a plenitude de sua visão de estadista como autor das "Instruções" (ou "Apontamentos", como as designam alguns), destinadas aos deputados paulistas eleitos para representar o Brasil na corte de Lisboa (encarregada de elaborar a nova Constituição do império português).
Nessas "Instruções", fornece aos nossos representantes as idéias claras de como imaginava o futuro país, já em processo de libertação. A idéia principal era assegurar unidade nacional, contrariando perigosos interesses regionalistas então manifestados. Desenvolve um programa completo de atendimento de necessidades administrativas do futuro Estado, versando sobre estrutura territorial, educação, saúde, questão indígena, política exterior e defesa. Insiste no sentido de que os nossos representantes na corte de Lisboa defendam a necessidade de interiorização do povoamento em face da expressão de nossa continentalidade (e para isso indica a transferência da capital e até sugere o local para a nova, "que poderia, em latitude, de pouco mais ou menos 15 graus, em sítio sadio, ameno e fértil e regado por algum rio navegável". Esse local se encontra acerca de 100 km de Brasília.
As razões que José Bonifácio via para a mudança da capital para o interior revelam sua notável visão geopolítica, invocam a imensidão geográfica e a característica continental-marítima de nosso território, com dupla servidão a ser atendida. Invoca motivos de defesa (numa época em que o poder marítimo das nações imperialistas ofereciam constantes perigos para os países fracos). Por fim, a necessidade de uma administração central que se transforme em pólo de atração das áreas periféricas, fortalecendo, assim, a unidade nacional. Diz textualmente:
"Com a mudança da capital para o interior, fica a Corte ou assento da Regência livre de qualquer assalto de surpresa externa e se chama para as províncias centrais o excesso de população vadia das cidades marítimas e mercantes", e, mais adiante, "desta Corte Central dever-se-ão logo abrir estradas para as diversas províncias e portos de mar, para que se comuniquem e circulem com toda a prontidão as ordens do governo e se favoreçam por elas o comércio interno do vasto Império do Brasil".
Sobre tudo isso pensou e sonhou José Bonifácio para sua futura pátria, em 1821, há 185 anos. E os nossos atuais estadistas de Brasília, em que pensam?

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