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sexta-feira, novembro 30, 2007

O Mito da Renascença - parte I

Traduzido e condensado do artigo de James Franklin

A história das idéias está repleta de estorinhas fictícias, bem mais do que a maioria dos outros departamentos da história. Eis três delas que combinam a implausibilidade inicial com uma persistência à refutação:

- que na Idade Média se acreditava que a Terra era plana;
- que os filósofos medievais debatiam sobre quantos anjos podiam dançar na cabeça de um alfinete;
- que Galileo revolucionou a Física ao soltar pesos do alto da Torre Inclinada de Pisa.

Nenhuma dessas estórias é verdadeira, e nenhum historiador competente afirmou nenhuma delas, mas mesmo assim essas estórias não desaparecem da consciência pública.

A primeira é facilmente refutada. A obra de pensamento medieval mais conhecida, tanto em sua época como hoje, é a Summa Teologica de São Tomás de Aquino. No livro 1, questão 1, artigo 1 desse tratado, a curvatura da Terra é dada como exemplo padrão de uma verdade científica bem conhecida.

A acusação sobre os anjos na cabeça do alfinete parece ser uma invenção comparativamente recente. Não fui capaz de descobrí-la em nenhum autor antes de Erasmus Darwin, embora alguém possa suspeitar que os Enciclopedistas ou Rabelais como mais prováveis autores dessa idéia. Jamais foi demonstrado que algum escritor medieval tenha se engajado em tal disputa, pela boa razão de que ela era inexistente.

A estória sobre Galileo tem um pouco mais de fundamento, no sentido em que ela foi narrada a menos de cinquenta anos depois da morte de Galileo e por um contemporâno seu. Mas as investigações não descobriram nenhuma evidência que Galileo realmente executara tal experimento, seja em Pisa ou outro lugar.

Mas negar essas estórias não irá impedir sua difusão pois não impediu das outras vezes. Mesmo que se desminta a estória da terra plana, ela será provavelmente susbstituída pela estória de que Santo Agostinho acreditava que o hemisfério sul seria desabitado pois as pessoas que vivem lá não poderiam ver a Segunda Vinda de Cristo em Jerusalém. A única ameaça à imortalidade dessas estorinhas parece ser a possível derrubada de uma estória ainda mais inconsistente e bizarra.

As estorinhas sobre os pensadores medievais e Galileo são pequenas mentiras.
A grande mentira, da qual essas são apenas rodapés, é a Renascença.


Os principais elementos do mito da Renascença são familiares:

- o súbito surgimento de uma nova visão do mundo depois de mil anos de obscuridade,
- a redescoberta do conhecimento ancestral,
- a difusão de novas idéias de liberdade e curiosidade intelectual,
- a investigação do mundo real em lugar das disputas estéreis dos acadêmicos,
- a ampliação do mundo através do descobrimento do Novo Mundo,
- a reforma da religião e
- o avanço da ciência.

De fato, não há verdade em nenhuma dessas idéias. Ao contrário, como veremos, a "Renascença" foi um período em que o pensamento decaiu significativamente, dando fim a um período de avanço no final da Idade Média.

Os vários problemas de definição quanto ao que aconteceu na Renascença e a incapacidade do público em manter a memória dos fatos permitiram a Renascença sofrer mudanças dramáticas de escala como um King Kong. O consenso razoável estabelece o início por volta da queda de Constantinopla para os Turcos em 1453, dando fim a Idade Média em 1564. Naquele ano, por uma coincidência conveniente, Michelangelo e Calvin morreram e Shakespeare, Marlowe e Galileo nasceram.

Isso dá a Renascença cerca de 100 anos, o que parece ser o bastante para uma explosão de energia criativa. Esse consenso coloca a dispersão dos acadêmicos bizantinos e as viagens de descobrimento à América e às Índias bem cedo no período, para que sirvam como fatores causadores da difusão das novas idéias. Também inclui todas as pessoas que são vistas como figuras da Renascença - Leonardo da Vinci, Lorenzo de Medici, Botticelli, Rabelais, Erasmus, More, os Bórgias, Maquiavel e Lutero.

Mas o problema para um admirador do período é que ele produziu apenas uma conquista intelectual significativa - a teoria planetária de Copérnico, publicada no fim do período em 1543.

Esse dado embaraçoso tem sido resolvido com o esforço de borrar os limites da Renascença, sob o pretexto de que eles não poderiam ser precisamente definidos, e se admite tacitamente que eles podem variar o bastante para incluir Dante e Giotto em uma extremidade e Galileo na outra. Isso cria uma Renascença inchada de 300 anos e que inclui a Peste Negra, a Guerra dos 100 Anos e outras coisas que mancham o que seria uma época áurea. Mas há um bom motivo para desejar essa expansão: na Itália, o centro da Renascença, não houveram pensadores merecedores do nome entre esses dois limites.

Para comparar a Renascença com algo (de maneira desfavorável, como será revelado), lembremos a situação do mundo por volta de 1300, a época de Dante e Giotto. Não poderia existir uma figura mais medieval do que Dante, e nem uma expressão mais perfeita da visão de mundo medieval do que a Divina Comédia. A vida de Dante foi, da maioria dos pontos de vista (mas não necessariamente o dele), o ponto alto da Idade Média. Foi uma era de maravilhas tecnológicas, com os primeiros óculos, os primeiros espelhos de vidro, os primeiros relógios mecânicos, a introdução da contabilidade de registro duplo e os alto-fornos siderúrgicos.

A pintura de Giotto foi, em concordância universal, o começo da arte moderna, e deve ser considerado um avanço tanto tecnológico como artístico. Ele produziu, aparentemente por si próprio, o ideal de arte ilusionista que prevaleceu até 1870 - o objetivo da pintura era descobrir métodos que fariam a pintura "parecer exatamente igual à coisa mesma". O próprio Giotto descobriu alguns dos truques mais importantes, tais como grupar umas figuras com uma parte obscurecida de outras para indicar profundidade e o uso correto dos ângulos para representar linhas tridimensionais em uma superfície bidimensional.

Invenções nos outros campos ampliaram o alcance da Europa no mundo - em uma direção, a Groelândia ficou em contato mais ou menos regular e a China na outra direção. Havia um arcebispado em Peking e atividade missionária em vários outros países asiáticos. Os relatos de Marco Polo em suas viagens eram muito populares. Em 1291, os irmãos Vivaldi de Gênova foram para Marrocos numa tentativa de encontrar uma rota marítima contornando a África até a Índia. Infelizmente eles desapareceram sem deixar vestígios, mas seus parentes estabeleceram agências comerciais na Índia, alcançadas pela rota do Mar Vermelho. Uma admiração indiscriminada pela época pode, contudo, se omitir de citar outra de suas inovações, o canhão. Embora tenha sido uma grande época em vários aspectos, ela foi tão afligida por guerras, pragas, expurgos e misoginia quanto qualquer outra época anterior ou posterior.

O principal esforço intelectual da Idade Média foi gasto, evidentemente, não em assuntos tecnológicos mas em filosofia e teologia. Dos grandes escolásticos, dois dos mais famosos, Duns Scotus e William de Ockham, foram contemporâneos de Dante. Embora as conquistas da filosofia medieval não sejam fáceis de apreciar, podemos entender algo do que foi feito na ciência, que era então considerada um ramo da filosofia. A história da ciência medieval vem sendo tratada seriamente apenas em tempos comparativamente recentes, já que servia às teses da maioria dos historiadores a idéia de que os estudiosos medievais estivessem examinando livros antigos em vez de examinar o mundo real.

Um tanto menos culpável é o fato de que o interesse em ciência e a habilidade em entender o Latim medieval são, pela natureza das coisas, raramente encontradas ambas numa mesma pessoa. Mas com os textos selecionados hoje disponíveis na tradução de Edward Grant "Sourcebook in Medieval Science" (também autor de "A History of Natural Philosophy : From the Ancient World to the Nineteenth Century"), podemos ver realmente como era boa a ciência da época.

Uma coisa que se torna clara é que todas as melhores partes vêm do período 1250-1350, isto é, durante a vida de Dante, uns poucos anos antes e depois. Por essa época, o melhor da ciência Grega e Árabe fora traduzida e absorvida e novas descobertas estavam em andamento. Até 1300 a ciência mais ativamente cultivada era a ótica geométrica. Desta, os maiores pesquisadores eram associados com a corte papal de João XXI nos anos 1270. O próprio Papa foi autor de um livro sobre o assunto (além de escrever best-sellers em lógica e medicina), e ele de fato morreu na busca da ciência quando o teto de seu laboratório desabou.

No próximo século, foi a mecânica que atraiu a atenção dos estudiosos. A importância disso foi que a próxima fase da ciência e da matemática, representada por Galileo, Descartes e Newton, fez suas mais importantes descobertas em conexão com o movimento dos corpos. Mas isso foi um assunto notadamente ausente da ciência da antiguidade.

O movimento, e a variação contínua em geral, parece ter sido considerada muito confusa para ser tratada rigorosamente, e não há sugestão de que nenhum tipo de mensuramento pudesse se aplicar ao movimento. Não há nenhuma frase em Grego ou Latim primitivos equivalente a "quilômetros por hora". Mesmo o movimento dos planetas foi tratado em termos da geometria das esferas celestes, à qual os planetas estariam supostamente ligados. Para remediar essa situação, era necessária uma identificação da variação contínua como assunto e a projeção de distinções importantes entre os conceitos básicos.

Se havia uma coisa na qual a filosofia medieval era boa, era em fazer distinções. Os cientistas da escola Merton, em Oxford nos anos 1330 e 1340, escreveram extensivamente sobre o "significado e remissão das formas", isto é, as mudanças de quaisquer quantidades que pudessem variar continuamente. O tópico cobria o movimento dos corpos, a mudança gradual de quente para frio, a variação do brilho sobre uma superfície e, de acordo com um dos membros da escola, o "significado e remissão da certeza com respeito à dúvida". Sua conquista crucial foi distinguir entre velocidade e aceleração, e entre aceleração uniforme e variada. Eles foram capazes de desenvolver o que expressamos através de uma equação de movimento uniformemente acelerado. Tudo isso requer um talento matemático de alta ordem.

Os próximos passos (finais, como ficou provado) nessa direção foram as realizações do último e maior dos cientistas medievais, Nicole Oresme. Pensador de notável versatilidade, ele escreveu sobre vários assuntos como teologia e finanças, mas devotou muitos de seus esforços à ciência e à matemática. Ele inventou os gráficos, uma das poucas descobertas matemáticas desde a antiguidade que são familiares a todos os leitores de jornais. Ele foi o primeiro a realizar cálculos envolvendo probabilidade.

Oresme tinha um bom domínio da relatividade do movimento, e argumentou corretamente que não havia meio de distinguir pela observação entre a teoria então vigente de que os céus giram em torno da Terra em um dia, e a teoria de que os céus estão em repouso e a Terra gira em um dia. Aparentemente ele foi o primeiro a comparar o funcionamento do universo a um relógio, uma imagem que foi bastante repetida nas épocas seguintes. Várias de suas conquistas mais técnicas também têm sido admiradas pelos peritos.

De repente, tudo isso parou.

Conhecendo a obra científica e matemática de Descartes e Galileo, mas sem a informação cronológica, poderíamos supor que os autores foram estudantes de Oresme. A obra de Galileo acerca dos corpos em movimento é o próximo passo depois da física de Oresme; a geometria cartesiana segue-se imediatamente da obra de Oresme com gráficos.

Mas nós sabemos que o intervalo cronológico real foi de 250 anos, durante os quais nada aconteceu nesses campos. Nem tampouco aconteceu algo de importância em outros campos da ciência nos 2 séculos entre Oresme e Copernicus. Outros campos intelectuais nada tiveram que oferecer.

A história da filosofia é naturalmente capaz de listar filósofos entre 1350 e 1600, mas sua inclusão parece ser baseada no mesmo princípio que faz mapas globais incluírem Wyndham, em Washington, mas deixar de fora Wollongong - deixa grandes espaços em branco a preencher. Embora seja possível encontrar uma tradução em inglês de qualquer filósofo nos 300 anos entre Scotus e Descartes, eles não fariam tanta falta. A estagnação intelectual desses séculos é evidente também na falta de mudança das universidades: o currículo que entediava Locke em Oxford em 1650 era quase idêntico ao que Wyclif julgava incompleto em 1350.

Em 200 anos, por que a geração de Oresme foi a última capaz de pensar? Há uma sugestão óbvia: foi a última geração a crescer antes da Peste Negra. A praga de 1348 a 1350 matou um terço da população européia, e reincidências da praga e outros desastres causaram um decréscimo contínuo da população por um século. Sob várias maneiras, a ordem da sociedade gradualmente se desfez; esse processo foi assunto de um dos livros mais populares de história nos últimos anos, "Um Espelho Distante", de Barbara Tuchman (também autora de "A Torre do Orgulho").

Embora a violência não tenha sido pouca até então, ela atingiu proporções inéditas. Os anos da praga viram a incidência de vários massacres de Judeus, especialmente na Alemanha. França e Inglaterra sofreram severamente durante a Guerra dos Cem Anos. Embora as batalhas intensas fossem raras, a guerra proseguia em maior parte através de campanhas de pilhagem em extensas áreas rurais. O custo de expedições regulares foi mantido sob taxação opressiva, o que enfraqueceu a economia, e a guerra constante fez surgir os barões do latrocínio que vivam do terror local e do serviço mercenário.

A autoridade do governo central praticamente perdeu sua efetividade. Em épocas diferentes, revoluções das ordens mais baixas atingiam o poder em Roma, Florença, Paris, Flanders e Londres. Em todos os casos a supressão e o massacre se seguiram. A autoridade da Igreja, até então principal influência na unidade da Europa, e patronato da vida intelectual, sofreu ainda mais. O Grande Cisma e seus consequentes abusos desacreditaram a Igreja ao criar duas autoridades rivais, mutuamente excomungadas, e nenhuma delas com santidade o bastante para se legitimar.

Nada disso melhorou muito no século XV, mesmo que o Cisma tenha sido finalmente sarado e a Guerra dos Cem Anos tendo acabado. Especialmente na Inglaterra, as coisas foram de mau a pior quando a anarquia se tornou normal na Guerra das Rosas. Historiadores jurídicos registram esse como um período de degeneração das leis Inglêsas; não havia motivo para desenvolver a lei do Rei quando o Rei não mais tinha meios de fazer valer a lei.

O mundo se contraiu: uma revolução nacionalista na China eliminou todas as influências externas, perdeu-se o contato com a Groelândia, e o Cisma causou uma perda do interesse em missões ao Oriente. Um sinal dos tempos foi a preocupação do século XV com a morte na arte e literatura, e presumidamente, a vida diária. As paredes das igrejas foram preenchidas com danças macabras, a poesia repetia a lição da mortalidade quase em exclusão de tudo o mais, e o verme provavelmente tomou o lugar do pássaro como animal mais esculpido. As figuras do século que sobreviveram na imaginação popular foram Joana D'Arc, Barba Azul, Drácula e Torquemada, todos eles associados com a morte violenta de uma forma ou de outra.

O efeito desses desenvolvimentos na vida da mente foi ruim, como era de se esperar. Não é muito fácil entender o que aconteceu em detalhes, já que na superfície as coisas iam de maneira normal. As universidades continuaram a ensinar as mesmas coisas, e de fato várias universidades novas foram fundadas. Mas nada de novo ocorreu nelas - os filósofos e teólogos universitários do século XV, por exemplo, repetiram Ockham quase que palavra por palavra.

Em um nível mais popular de pensamento, algumas ocorrências estranhas se deram na concepção geral do mundo. O mundo se tornou coberto por uma rede elaborada de sinais. No campo secular, houve uma epidemia de heráldica. De todas as ciências, ela é talvez a mais degenerada intelectualmente, sendo um tipo de perversão do desejo genuinamente científico por um sistema e pela ordem, da mesma maneira que a filatelia é uma perversão do desejo de classificar. A heráldica é nada mais que um distanciamento do pensamento genuíno, no sentido em que a genealogia pelo menos estuda alguns fatos reais, enquanto a heráldica é um sistema completamente arbitrário de sinais parasitando a genealogia. Mesmo a Guerra das Rosas levou esse nome por causa dos símbolos dos lados oponentes.

Ao mesmo tempo a literatura contraiu uma doença que parece de alguma maneira ser um sintoma da mesma doença básica: a alegoria. O famoso exame que Huizinga fez do período em "O Outono da Idade Média" descreve como tudo chegou a ser considerado como material do qual se fabricava sinais de alguma outra coisa:

A noz significa o Cristo, o núcleo doce é Sua natureza divina, a casca verde e pulposa é Sua humanidade, a casca de madeira entre as duas é a Cruz... Cada uma das palavras da Ave significa uma das perfeições da Virgem, e ao mesmo tempo uma pedra preciosa, e é capaz de afastar um pecado, ou o animal que representa aquele pecado... o sete eleitores do Império significam as virtudes... os sapatos significam cuidado e diligência, as meias a perseverança, a banda elástica das meias a resolução, etc.

Esse hábito de pensamento era particularmente destrutivo do pensamento racional, já que de um lado um enorme esforço imaginativo era gasto em traçar paralelos cada vez mais surpreendentes entre as coisas, e por outro lado era essencial para o exercício fingir que esses paralelos não eram apenas coisas da imaginação, mas que seriam instrutivos porque as coisas comparadas realmente se espelhariam uma à outra.

Não é muito despropositado, na minha opinião, comparar isso com o marxismo. A tendência do pensamento marxista quando se depara, por exemplo, com um resultado científico, é relacionar a ideologia da ciência burguesa com a consciência histórica dos cientistas e sua comunidade. À parte da questão de essa idéia ser verdadeira ou não, o efeito resultante é o desvio da atenção do fato original. O mesmo é verdade para a alegoria. Os fatos sobre uma coisa e suas relações reais com outras coisas serão ignorados se a mente que a observa estiver treinada para buscar imediatamente maneiras engenhosas de ver uma coisa como sinal de alguma outra coisa. A construção de similaridades alegóricas substituiu a busca pelas conexões causais.

A enumeração dos sistemas patológicos de sinais, infelizmente, não termina com a heráldica e a alegoria. A astrologia, embora combatida vigorosamente por Oresme e outros, aumentou sua influência, produzindo sua própria divisão do céu em signos governando os destinos dos homens. A cabala judaica sugou ainda mais energia intelectual criando um sistema de significação rival.

Esses sistemas pelo menos tinham poucos deméritos. Alguns eventos relacionados a esses sistemas foram mais sinistros. O hábito de pensamento pelo qual tudo pode significar e afetar alguma outra coisa levaram à busca pelas influências ocultas. A astrologia, é claro, buscava um conjunto de causas ocultas das ações. A alquimia desfrutou seu auge na Renascença, atendendo a um mercado similar. Assim também foi com a bruxaria.

Naturalmente, a existência de pessoas em busca de poderes ocultos gerou o medo nos outros de que essas pessoas pudessem ser bem sucedidas. A repressão aumentou em proporção. A queima das bruxas e a Inquisição tendem a serem vistas hoje como pertencentes à Idade Média, sendo incompatíveis com o mito da Renascença do aumento do esclarecimento.

Embora na Idade Média esses fenômenos ocorressem de vez em quando, o grande surto de ódio contra bruxas e heréticos explodiu à medida que o século XV progredia (ou regredia). A Inquisição espanhola esteve no seu pior por volta das viagens de Colombo, época em que ela já havia sido vinculada à repressão política e provou estar além do controle do Papa. A caça e queima das bruxas em larga escala pertence principalmente ao século XVI.

Por volta de 1500, haviam aparentemente poucos pensadores restantes que fossem capazes de dizer a diferença entre sinais e coisas. Religião, de acordo com os Reformadores, não era tanto acerca do homem, de Deus ou da comunidade cristã, quanto era sobre a escritura, os sinais escritos por Deus. A concentração excessiva no texto pelos primeiros reformadores ameaçou eliminar como irrelevante tudo o que não fosse fé nos signos, incluindo a moralidade pessoal e a ciência. Felizmente as coisas não funcionaram bem dessa forma na maioria dos lugares, e a teologia fundamentalista não empederniu e matou o pensamento como o fez no Islã.

Calvin desenvolveu ainda um outro sistema de signos. Como ele quis estabelecer estados nos quais os eleitos de Deus poderiam louvá-Lo por tê-los escolhidos, era essencial ser capaz de reconhecer os sinais pelos quais alguém pudesse distinguir os eleitos dos condenados. No início, Calvin teve certeza de que os conhecia, mas seus planos enfrentaram dificuldades quando alguns dos seus associados que pareciam possuir todos os sinais mais tarde discordaram dele. Ele finalmente admitiu que embora alguém pudesse ter certeza da própria eleição, não haviam sinais infalíveis para dizer se alguém estava salvo.

A menção à Calvin serve para nos lembrar que a Renascença pode ser considerada, entre outras coisas, como a era dos vendedores de panacéias lunáticas: Torquemada, Savonarola, Paracelsus, Nostradamus, John Knox. Alguns desses conseguiram poder sobre países inteiros. "O sono da razão faz surgirem monstros", como disse Goya. Entre eles, essas pessoas também puseram por terra quaisquer sugestões de que a Renascença teve alguma coisa a ver com liberdade e tolerância.

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quarta-feira, novembro 28, 2007

Abortismo é obra da eugenia e é esquerdista

Uma das maiores imundícies esquerdistas - e é bom expôr para que todos saibam.

O abortismo é obra da eugenia, que é obra esquerdista.

A proposta de eugenia foi criada por Sir Francis Galton, primo de Charles Darwin, que encantou-se com "A Origem das Espécies" e decidiu pesquisar a relação das habilidades humanas com a hereditariedade. Em seu livro de 1883, "Inquiries in Human Faculty and its Development", ele propôs o primeiro esquema eugênico, recomendando o incentivo monetário às famílias de pessoas brilhantes cujos filhos se casassem cedo.

Suas pesquisas deram origem aos primeiros testes de inteligência, avanços na estatística e o método de identificação usando impressões digitais.

Mas o movimento pela eugenia logo passou a recomendar a esterilização dos "burros" e mentalmente deficientes, e nos EUA do início do século XX, acabou por tomar como alvo os mais pobres em vez de apenas os menos capacitados.

Uma das pioneiras desse tipo de eugenia foi a militante socialista Margaret Sanger, fundadora da American Birth Control League, que mais tarde se tornou a Planned Parenthood. Sanger esteve em contato com todo o tipo de entidades nefastas, como a militância feminina dentro da Klu-klux-klan e o antropólogo nazista Eugen Fischer.

Sanger promovia a idéia de "higiene racial" através de "eugenia negativa", em contraste com a "eugenia positiva" proposta por Sir Galton. Para ela, a multiplicação dos "incapazes" era a "maior ameaça atual à civilização" e sugeria ao Congresso que fosse criado um departamento especial para estudar os problemas da população a fim de aumentar o nível e a inteligência geral da população.

Seus pronunciamentos eram eivados de racismo: "Quanto mais descemos na escala do desenvolvimento humano, menor controle sexual observamos. Diz-se que o Australiano aborígene, a espécie de humano mais inferior conhecida, apenas um degrau mais alto que um chipanzé em termos de desenvolvimento do cérebro, tem tão pouco controle sexual que somente a força policial o impede de buscar satisfação sexual em público." (do seu livro de 1920, "What Every Girl Should Know").

Em seu livro de 1932, ironicamente intitulado "A Plan for Peace", Sanger argumentava por "Uma política rígida e severa de esterilização e segregação para aquela categoria de população cuja progenia já esteja contaminada ou cuja hereditariedade é tal que características indesejáveis possam ser transmitidas à prole."

Sanger via no controle de natalidade um meio de impedir crianças "disgênicas" de nascerem. Em breve vários líderes do movimento eugênico começaram a clamar pela eutanásia dos "inaptos". William Robinson defendia o envio de crianças para a câmara de gás: "A melhor coisa seria aplicar gentilmente o clorofórmio a essas crianças ou dar uma dose de cianeto de potássio".

Quando a Alemanha nazista adotou os princípios da eugenia para criar a "raça mestre" germânica, Sanger se omitiu de denunciar publicamente o programa racista e anti-semita dos nazistas.

Como um programa governamental de extermínio de crianças causou muita repugnância, Sanger propôs que o "controle" fosse feito individualmente e assim esboçou a fachada do "direito de escolha": "Mantemos que uma mulher possuidora de um conhecimento adequado de suas funções reprodutivas é quem melhor pode julgar o momento e as condições sob as quais sua criança será trazida ao mundo. Nós ainda mantemos que é seu direito, independente de todas as outras considerações, determinar se ela terá a criança ou não, e quantas crianças ela terá se ela optar em se tornar mãe... Somente através de uma maternidade livre e auto-determinada poderá se estabelecer uma estrutura inabalável de melhoria racial." (artigo "Birth Control and Racial Betterment" publicado em "The Birth Control Review" nro. 3)

Fica evidente que o "direito de escolha" fora proposto pela primeira líder do movimento abortista moderno como forma de "melhoria racial" e não como defesa dos direitos da mulher (matar os filhos).

Embora qualquer abortista de hoje omita essa informação, mesmo sendo abortista, Sanger via o aborto como algo ruim: "ninguém pode duvidar que há vezes em que um aborto é justificável... os abortos se tornarão desnecessários quando os cuidados forem tomados para prevenir a concepção. A prevenção é a única cura para os abortos". (de "Family Limitation", de 1916)

Em sua autobiografia publicada em 1938, ela escreveu palavras bem claras quanto ao que é o aborto: "Para cada grupo explicamos o que era a contracepção; que o aborto era a maneira errada - não importa o quão cedo era feito, era tirar uma vida; que a contracepção era a melhor maneira, a mais segura - ele levava um pouco mais de tempo e incômodo, mas valia a pena no longo prazo, porque a vida ainda não tinha começado."

As palavras sinceras da maior patrocinadora do abortismo reconhecem que aborto é tirar uma vida e que a vida começa na concepção. Fica assim comprovada mais uma fraude na história do abortismo: os abortistas de hoje apenas pregam uma mentira, que nem mesmo a fundadora desse movimento acreditava, para avançar o assassinato de crianças.

Mais sobre o histórico de fraudes do movimento abortista:

Cabeça de Abortista

Escolha o Adjetivo

Lógica de Abortista

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